Agora: Em cima da hora, em cima do tempo

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O mundo está esquisito, estranho para quem viveu bem o século XX. Nunca fizemos planos pessoais que chegassem até 2020. Mas, já que aqui estamos, não desistimos de tentar compreender o mundo que nos rodeia e de formular ideias – apenas vagas e exploratórias – supostamente susceptíveis de resolver os principais problemas que nos apoquentam, ou ao menos de minorar os seus efeitos nocivos e de potenciar o que de bom a Humanidade tem ultimamente produzido.

À entrada desta terceira década do século XXI, os temas dominantes são as alterações climáticas, os novos populismos, a 4ª revolução industrial, a expansão chinesa e as correlativas resistências americana, russa e europeia (esta, coxeando aqui e acolá). Os “novos dragões” do oriente, e mesmo “brics” como a Índia, a África do Sul e o Brasil, parecem ter esgotado grande parte do fulgor que exibiam há anos atrás. O tempo do “fórum alternativo” e de outras manifestações anti-capitalistas ou tendo o “império yankee” no colimador quase desapareceu da cena mediática internacional, com os Grandes do Mundo a reunirem-se agora em sítios esconsos, pouco propícios a ajuntamentos de “people”. No entanto, o estilo “massivo” (e só marginalmente violentos) daqueles ajuntamentos reaparece em qualquer oportunidade, como há semanas aconteceu em Madrid por causa dos temores do clima. Até os atentados terroristas no ocidente parecem ter perdido o fôlego, após a derrota no terreno do “Estado Islâmico” e (imagina-se) devido aos gigantescos progressos da contra-espionagem, de base electrónica ou tradicional. Até ver…

Contudo, é no espaço comunicativo (“ciber”) e no dos comportamentos sociais que as maiores mudanças parecem estar a ocorrer, levando-nos à pergunta: o que sabemos das ciências sociais (e outras) do século passado terá ainda pertinência actualmente e no mundo que se vai viver – viver, amar, sonhar, lutar e morrer – nas próximas décadas?

No espaço público – hoje já não a praça, o mercado ou o lavadouro, e cada vez menos o café e o jornal – continuam a assentar arraiais os mass media, em acesa competição uns com os outros, incluindo na área da informação, com o “directo” a pôr os repórteres à compita (a quererem fazer literatura pífia) e os pivots a pavonearem-se com “decimais” de estatísticas que não entendem. Os operadores televisivos seleccionam em função de critérios próprios as notícias (em palavras e imagens/sons), os entretenimentos e os poucos elementos de cultura-culta que entendem dever servir-nos – a nós, habitantes e cidadãos, que pagamos impostos, podemos votar e (dentro de certos limites) trabalhamos em coisas consideradas úteis –, juntamente com doses maciças de publicidade comercial que fazem convergir a nossa distraída atenção para o que conjunturalmente lhes interessa: automóveis, turismo, culinárias, desporto, o show biz’, etc. A máquina de produção-consumo-lucro instalada não autoriza paragens nem permite conceber razoavelmente como passar desta febre de consumismo desenfreado para dinâmicas mais pausadas, moderadas, sustentáveis e justas para todos, num horizonte de uma ou duas gerações. Daí também o fechamento e o niilismo a que, compreensivelmente, se entregam muitas pessoas insatisfeitas ou infelizes.

Há um século, já era difícil, com os votos corrompidos pelo caciquismo, o maltusianismo do corpo eleitoral e a resignação pregada geralmente pelas religiões. Mas, apesar dessas dificuldades, o sistema produtivo concedia ainda aos sectores mais qualificados do operariado um domínio profissional que os habilitava a compreender e serem capazes de gerir o funcionamento das fábricas e indústrias, do comércio, dos transportes e comunicações – e (por essa via) aspirarem a poder vir a introduzir princípios de maior justiça e igualdade no acesso aos bens sociais, no quadro nacional. A isto se associava o controlo que o agricultor familiar podia ainda possuir sobre a produção agro-pecuária de pequena escala, porém suficiente para abastecer os aldeãos e as vilas da vizinhança. É certo que lhes escapavam completamente os saberes do comércio externo, da finança, da diplomacia e da estratégia, e por isso fizeram erros e provocaram novos desastres quando se alçaram à posição de donos do poder político.

Mas, hoje, a complexidade dos sistemas económicos mundiais, da ciência e das aplicações tecnológicas, das variáveis em jogo nas relações internacionais e das próprias expectativas das populações e dos grupos sociais torna aquelas perspectivas – e as ideologias nelas apoiadas – quase totalmente destituídas de sentido prático.

Poderia pensar-se que a expressão política mais pragmática e moderada, assente no respeito das regras democráticas e em valores de liberdade e maior justiça social (como os partidos republicanos, socializantes, cristãos ou liberais em muitos países ocidentais, todos com os seus méritos e pecados), seria a opção mais racional para gerir esta complexidade a partir das posições legislativas e governamentais. Mas até isto tem vindo a mostrar evidentes sinais de desgaste e falência, deixando-se penetrar pela corrupção económica e pelo fascínio do mando, afastando-se progressivamente dos anseios das populações. Basta ver, a crise dos partidos tradicionais, as taxas de abstenção eleitoral ou a emergência dos “novos populismos”; e, no caso português, os poucos debates televisivos que (além da “futebolite”) subsistem na programação semanal dos canais de informação: em todos eles se discutem os mesmos três ou quatro “casos mediáticos” da semana, intensamente pessoalizados; e os intervenientes pertencem quase sempre ao mesmo restrito círculo de comentadores cujas afinidades políticas se vislumbram facilmente. Em contra-partida, a notoriedade televisiva é frequentemente usada como trampolim para alguns se talharem novas carreiras políticas, se reconverterem para outras posições no estrelato das “figuras públicas” ou, mais simplesmente (como vários líderes actuais de grandes países), para difundirem mensagens úteis para o seu exercício de poder. Nestas posições proeminentes, tivemos em Portugal um Presidente-militar, dois sociais-democratas vindo do antifascismo, um tecnocrata (de quem o povo dizia: “este, é cá dos nossos”) e um arguto gestor-de-imagens-e-expectativas, não sendo fácil imaginar o perfil do senhor que se seguirá em Belém. E nos últimos tempos, os holofotes televisivos focaram-se em S. Bento sucessivamente sobre um megalómano, um “rapaz” que chegou em mau momento para liberalizar a economia do país e um outro especialista da “comunicação política” (apesar da sua deficiente verbalização), dos “jogos de cintura” e da arte de negociar. Antigamente, era o “esteve(s)…”; agora é o “vamos…”.

Acontece, porém, que o impacto destes meios de comunicação de massas tem vindo ultimamente a decrescer, mercê do correlativo sucesso das “social networks”, dos Sites, Blogs e outros dispositivos “fixos” permitidos pela tele-informática.

O campo das “redes sociais” tem sido aproveitado para grandes e sofisticadas operações de influenciação das escolhas eleitorais, substituindo em boa medida o “porta-a-porta” tradicional e deixando os comícios, jantares e “arruadas” para a mobilização de militantes e as fugazes imagens dos telejornais. Mas, fundamentalmente, é aí que se tem edificado o meio privilegiado de expressão e acção individual (e social) das novas populações urbanas escolarizadas (ainda que pobremente), fazendo-nos perceber que estamos provavelmente no dealbar de uma “nova era” da história do mundo e da humanidade – onde o livro e a consciência individual esmorecerão… e as neuroses ascenderão ao patamar de “bens públicos”.

Lado a lado com alguns extraordinários avanços permitidos pela ciência e as tecnologias – no campo da bio-química, da astro-física, da electrónica e das telecomunicações, apenas para citar alguns, mas em geral em todas as áreas do conhecimento –, suspeitamos da instalação progressiva de um desregramento dos comportamentos humanos (e de uma “desumanização”, para falar claro) que, como sempre, se iniciou nos campos artísticos e criativos, se legitimou através de algumas instituições (em particular, no edifício das “ciências sociais e humanas”) e se disseminou à boleia dos grandes interesses económicos, mundializados: na produção, no consumo, no crédito e nos serviços.

A revolução tecnológica da Informação abriu-nos portas para um novo mundo, com possibilidades magníficas, antes insuspeitáveis. Mas o homo comumicativus tem hoje também ao seu dispor um “escarrador público” onde anonimamente pode despejar as suas frustrações e desejos impossíveis, um excelente instrumento para combinar negócios e golpadas, ou ainda tentar mobilizar avalanchas emocionais. Tais protagonistas anónimos julgam-se espiritualmente livres e “eles-próprios” – autónomos na sua individualidade, nas posturas que adoptam e modos-de-ser que interiorizam –, quando afinal copiam e reproduzem os modelos que outros (grandes empresas multinacionais com orientações estratégicas ou outras “centrais” difusoras de comportamentos sociais) inventam e põem a circular, apenas se distinguindo dos seus parceiros nos pormenores pindéricos do corte capilar ou nas ínfimas variações do produto mercantil que consomem, agora produzido “em série flexível”, com múltiplas possibilidades alternativas “à escolha do cliente”.

As alterações climáticas, com aliados fortes na comunicação social, nos professores e nos cientistas mais aptos ao protagonismo mediático (que, fazendo ciência, “fazem política”), não são realmente uma invenção dos adversários dos Trump, dos Bolsonaros ou dos críticos dos chineses. Pode ser que ocorressem mesmo sem a moderna “pegada humana” (como se verificou no passado longínquo), mas é bem provável que a nossa “civilização” – com tão belas realizações em alguns campos – tenha vindo a contribuir fortemente para agravar as mutações em curso. Estamos a referir-nos sobretudo à emissão de gases com “efeito de estufa” pelas indústrias pesadas e pelo maciço fenómeno da urbanização, à “motorização” do transporte individual e à desflorestação de alguns grandes “pulmões verdes” da Terra. Mas não podemos minimizar os efeitos nocivos de certas explorações mineiras, do emprego de diversos produtos químicos, da poluição dos oceanos ou do aquecimento pelas “perdas térmicas” de qualquer tipo de maquinismo, além do risco sempre latente dos mega-acidentes (de que os atómicos seriam decerto os mais catastróficos). É possível que a “transição energética” que agora tecnocraticamente nos propõem venha a ter sucesso e que dentro de cinquenta anos todos os automóveis sejam eléctricos e se tenha encerrado o capítulo do recurso maciço aos combustíveis fósseis. Mas isso só ocorrerá se o novo “modo de consumo” for economicamente viável. E, para produzir electricidade, armazenar a sua produção e geri-la de modo útil para um consumo cada vez maior nunca bastarão as actuais “fontes renováveis”. Onde e como fazê-lo, então?

Aqui, batemos à porta dos problemas da quarta revolução industrial e da exploração/colonização espacial, mas também da nossa demografia, da educação, da economia, da política e dos movimentos sociais.

A Greta Thunberg e os jovens urbanos escolarizados que agora se agitam e mobilizam para o protesto sobre estas “causas” são um sinal de que estão a ser sensibilizados pela acção “vanguardista” dos media e da escola; mas também que estão a ser, eles próprios, protagonistas do novo mundo intercomunicativo das “redes sociais” – com todos os seus defeitos, vantagens e potencialidades. É decerto importante a consciencialização das populações para estes problemas, enquanto opinião pública, pois isso condicionará as forças políticas existentes nas suas futuras operações propagandísticas-eleitorais. Mas tal só minimamente afectará as atitudes sociais dos diversos povos da Terra face à economia, ao sistema de produção-consumo e aos mais acarinhados projectos-de-vida de cada qual.

É nestas condições que os “populismos” e o papel dos líderes carismáticos – com mentiras e meias-verdades, a dizerem o que “as massas” querem ouvir – ganham toda a sua actual acuidade. Pelo que urge estar atentos a tais derivas, mas também ao escrutínio rigoroso do surgimento de movimentos inovadores, às reacções das forças partidárias instaladas e mesmo ao risco de nos deixarmos arrastar para conflitos violentos de contornos pouco evidentes.

A política internacional é hoje tão ou mais importante do que a gestão dos interesses e das idiossincrasias caseiras. O caso da saída do Reino Unido do concerto da União Europeia é um gritante exemplo desta interdependência. A China é outro.

No primeiro, vimos que o estilo contundente de Boris Johnson ganhou claramente nas urnas e, ao menos, deveremos ter um Brexit negociado que inaugurará um novo período nas relações económicas internacionais. Porém, além da muito badalada pulsão independentista dos escoceses, há outras armadilhas engatilhadas que ameaçam a subsistência do Reino Unido enquanto Estado: nomeadamente, os termos acordados pelo actual prime-minister com Bruxelas segundo os quais o arranjo alfandegário especial para a fronteira entre o Ulster e a República da Irlanda (para evitar o “back-stop”) deverá ser confirmado de quatro em quatro anos por um voto do Parlamento de Belfast. Isto é: com a demografia a trabalhar em favor os católicos, os protestantes “unionistas” da Irlanda do Norte arriscam-se a, daqui a algum tempo, ficarem com uma minoria tal no seu parlamento que permita vir a ultrapassar este arranjo e substituir o “acordo de Sexta-Feira Santa” por um outro qualquer processo negocial/referendário que leve à tão sonhada (pelos católicos e nacionalistas “verdes”) unificação das Irlandas sob um mesmo regime político. Isto, não se lê nos astros, mas está na lógica decorrente das soluções de “desenrasca” tão ao jeito do senhor Boris e de que (inteligente como é) há-de ter medido todas as consequências e implicações para o prazo em que for ele a mandar. Depois, quem vier que se amole…

Do segundo caso, podemos dizer que Xi-Jinping e o estado-maior de Pekin possuem uma consciência aguda dos problemas que os ameaçam (vide a atitude de “firmeza” para com os jovens revoltados de Hong-Kong e o seu desvelo por Macau) e têm uma estratégia delineada ao pormenor para a China Popular se vir a impor como a potência hegemónica na segunda metade do século XXI, ou ao menos para partilhar essa posição com os Estados Unidos numa situação de equilíbrio-de-Blocos, tendo o Oceano Pacífico por “terra de ninguém”. Regime forte (com ambições territoriais bem demarcadas), concorrência regulada (sobretudo no comércio externo, mas sempre ineficaz pela inovação tecnológica) e capitalismo (com escala suficiente para a mão-forte do Estado e, simultaneamente, espaço para banqueiros, empresários, jogadores-de-casino e pequenos lojistas/traficantes) – eis os três pilares em que parece assentar a originalidade da China actual, que em muitos aspectos se encontra em plena sintonia com o que vai dominando pelo resto do mundo.

Neste contexto, Portugal figura como um pequeno parceiro, amarrado à Europa e ao Atlântico pela geografia e pela história, sem ambições mas com referências bem para além destes limites, entre as quais avultam a memória-do-império, a expatriação e o património da língua. Do resto – da sociedade e da política, da simpatia e das invejas –, conhecemos nós o suficiente para que seja necessário estar sempre a falar delas.

 

JF / 1.Jan.2020

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