Agora: Boas prosas e argumentos de autoridade: A óptica contundente de Stendhal

Stendhal retrato

Lido e apreciado em 2019 por JF.

Cito:

«Leitor benévolo,

Uma vez em Paris, só com grandes esforços não me deixarei arrastar à pintura de qualquer personalidade conhecida. Não é que não preze muito a sátira, mas, ao chamar a atenção do leitor para a figura grotesca de qualquer ministro, o coração do leitor abre falência no interesse que quero inspirar-lhe pelas outras personagens. Essa coisa tão divertida, a sátira pessoal, não convém, portanto, infelizmente, à narração de uma história. O leitor ficará ocupado a comparar o meu retrato com o original grotesco, ou mesmo odioso, dele bem conhecido. Vê-lo-á sujo ou negro, consoante a história o pinta.

As personalidades são sedutoras quando verdadeiras e pouco exageradas, e é uma tentação que aquilo que vemos há vinte anos seja feito para nos eliminar.

“Puro engano”, diz Montesquieu, “caluniar a Inquisição!” Teria dito nos nossos dias: “Que havia a acrescentar ao amor do dinheiro, ao medo de perder o lugar que se ocupa e ao desejo de adivinhar as fantasias do nosso amo, alma de todos os discursos hipócritas de quantos estão a comer mais de cinquenta mil francos à mesa do orçamento?”

Sou de opinião que, acima de cinquenta mil francos, a vida particular de cada um tem de deixar de estar murada.

Mas a sátira dos felizardos da mesa do orçamento não entra no meu plano. O vinagre em si mesmo é coisa excelente, mas, misturado com o leite, estraga tudo. Fiz, pois, tudo quanto pude para que tu não possas reconhecer, ó leitor benévolo, o ministro destes últimos tempos que fez as suas partidas a Leuwen. Que prazer terias tu em saber, pormenorizadamente, que esse ministro era ladrão, que morria de medo de perder o lugar, e que não dizia uma só palavra que não fosse falsa? Essas criaturas só são boas para os herdeiros. Como nada de espontâneo lhes entrou nunca na alma, a vista interior dessa alma causar-te-ia náusea, ó leitor benévolo, e pior seria se porventura eu tivesse a pouca sorte de te fazer adivinhar as feições dulcerosas ou ignóbeis que recobriam essa alma terra a terra.

Bem basta termos de ver essa gente quando somos obrigados a ir pedir-lhe qualquer coisa pela manhã.

Non regioniam di loro, ma guarda e passa

 

(Stendhal, aliás Henri-Maria Beyle, francês, 1783-1842, escreveu esta pequena introdução à II Parte do seu romance Os Amores de Lucien Leuwen, publicado postumamente em 1894 e traduzido ao português por João Gaspar Simões, para a Presença, em 1962)

 

 

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