Há um século: O Tratado de Paz de Versalhes e as suas ilusões

A 28 de Junho de 1919, na Galeria dos Espelhos do Palácio de Varsalhes, era assinado o Tratado de Paz que encerrava o capítulo da tremenda confrontação guerreira de 1914-18. Pela primeira vez, uma guerra europeia terminava com a intervenção determinante de um actor não-europeu: os Estados Unidos da América, ali representados pelo seu presidente Woodrow Wilson, um democrata algo teórico. Entre os “14 pontos” por si anunciados no ano anterior para “pôr ordem” nas desavenças entre as potências ocidentais figuravam o fim dos pactos secretos, uma resposta favorável mas comedida às aspirações nacionais mais efervescentes e uma “sociedade das nações” capaz de velar pela paz no continente. Porém, a situação era tremendamente difícil e ainda mais incerta do que aquela que hoje julgamos defrontar: não só sobre como lidar com os vencidos (para prevenir revanchismos) mas também para conciliar os interesses dos vencedores (diversos) e dar algum tipo de resposta (reduzindo riscos futuros) às novas “forças emergentes” que haviam aproveitado a conjuntura para se alçarem no plano internacional. Vejamos abreviadamente cada um destes três planos.

Com boas razões, a Alemanha foi considerada responsável, não só pelo desencadear da guerra como pelo recurso que fez de certas práticas bélicas inovadoras. Se a criminalização do Kaiser (Wilhelm II, von Hohenzollern) não pôde ser concretizada, o país foi duramente penalizado com o pagamento de indemnizações de guerra que muitas vozes logo consideraram excessivas e causadoras de efeitos perversos (como se verificou rapidamente). Também sofreu amputações territoriais significativas – desde logo o disputado espaço fronteiriço da Alsácia-Lorena e sob ameaças de outras –, das quais o seu recente império colonial foi, na prática, acrescentar-se ao poderio britânico nesse campo, e noutros casos serviu para contentar reivindicações neo-nacionais. Quanto à prevenção do risco de nova guerra, a ameaça da separação da Renânia (margem esquerda do Reno) e da Baviera católica em entidades políticas autónomas, o controlo temporário da região carbonífera-industrial do Ruhr, a desmilitarização de toda a zona ocidental encostada à França e à Bélgica e, finalmente, o desmantelamento do seu aparelho militar (com drástica redução dos efectivos e sem armas pesadas, gases, aviação ou submarinos). Estas medidas, pela sua grandeza, foram sentidas pela população e pelas elites germânicas como uma vontade de humilhação, sobretudo atribuída ao vizinho francês. O fim dos regimes monárquicos não foi imposto porque, tanto na Alemanha como na Áustria, na Hungria e na Turquia, forças republicanas internas, pré-existentes, tomaram elas próprias a iniciativa de o fazer. Mas o império dos Habsburg e o Otomano foram desmembrados: além do caso húngaro, os territórios mesclados dos Balcãs foram postos sob o poder de um reino da Jugoslávia (assente em Belgrado), ainda que iniciativas unilaterais italianas (entre as quais a expedição de voluntários de D’Annunzio, logo em 1919) tenham colocado as cidades de Trieste, Pola e Fiume (hoje Rijeka, na Croácia) sob o seu controlo; a Turquia conseguiu manter a sua reduzida expressão aquém-Bósforo (que lhe dava a posição estratégica fundamental de controlo dos Estreitos) mas perdeu a Mesopotâmia (rica em petróleo), a Palestina e o Líbano-Síria para o domínio económico e militar de ingleses e franceses.

Os nacionalismos emergentes foram satisfeitos nalguns casos, noutros não, e por diversas vias. Desde logo, a Polónia (católica e bastante anti-semita) acedeu a uma independência definitiva embora sempre incerta nas suas fronteiras, ameaçadas pelos vizinhos alemães e russos (com quem ainda travou combates em 1919). A Checoslováquia, a Finlândia e as três pequenas repúblicas bálticas também entraram no “concerto das nações”. Em certos casos previam-se referendos locais para decidir o destino político dessas populações. Mas os desacertos entre “os quatro” (França, Inglaterra, Estados Unidos e Itália), reduzidos a três quando a Itália (que, embora com atraso, ainda apanhara o comboio da beligerância) viu desatendidos pelos seus parceiros as ambições territoriais que tinha na Ístria e na Dalmácia, foram patentes em muitas ocasiões, devido aos respectivos interesses próprios, talvez também aos temperamentos dos seus líderes (Clémenceau, Lloyd George e Wilson), mas decerto pelas pressões que estes sofriam por parte das forças políticas e das opiniões públicas de cada um destes países. (Sujeições próprias das democracias…) Houve também ocorrências inesperadas. Veja-se o caso da Irlanda: trabalhados por um velho ressentimento de vencido histórico, pelas diferenças religiosas e culturais, e por um passado recente de miséria e emigração, os irlandeses aproveitaram a ocasião para forçar a sua independência. Londres sentiu a revolta da Páscoa de 1916 como “a facada nas costas”, quando o país fazia um esforço tremendo para enfrentar os “boches” no Continente e no Império. Reagiu, enforcando alguns dos rebeldes e assim matando a insurreição. Porém, no imediato pós-guerra, apanhou em cheio com a unilateral declaração de independência dos eleitos de Dublin (na altura em que se gerou um motim das suas tropas estacionadas em Calais) e, em seguida, travou uma guerra de guerrilhas contra o IRA que só se concluiu em finais de 1921 com a criação do Estado Livre do Eire (Irlanda), independente, ficando o norte minoritário onde se agruparam os “unionistas” protestantes – o Ulster – a manter a sua integração na coroa britânica, situação que se mantém até hoje.

A situação da Rússia-em-revolução também esteve presente nestes conciliábulos. Tendo feito “paz separada” com a Alemanha em Brest-Litovksi logo após o “golpe de Outubro” (com muitas cedências, confirmadas pelo Tratado de Rapallo de 1922), o governo dos Sovietes não pôde sentar-se à “mesa dos vencedores”. Os aliados chegaram mesmo a temer um entendimento militar entre Berlim e Moscovo. De facto, enquanto durou a Conferência da Paz e o cessar-fogo era só provisório, mantido pela vigência do armistício, a retoma das hostilidades por qualquer dos lados foi sempre uma eventualidade presente, apesar do deslassar do ânimo alemão mas alertando o marechal Foch, comandante supremo das forças aliadas no final do conflito, que, se fosse o caso, ele não tinha forças suficientes para penetrar mais fundo no país e assumir uma ocupação. Por outro lado, sendo as medidas de política interna tomadas por Lénine assustadoras para o sistema liberal capitalista que imperava a Ocidente e havendo operações de guerra civil entre “vermelhos” e “brancos” em várias zonas do seu território, “os três” ponderaram até que ponto poderiam ajudar à queda do poder dos bolcheviks. Churchill sugeriu mesmo uma ofensiva militar em força contra a Rússia, impossível face ao esgotamento das capacidades financeiras, descontinuação das cadeias logísticas e indisponibilidade anímica dos soldados (e suas famílias) para mais guerras. Por isso, limitaram-se a fornecer algum apoio às forças dos chefes militares oposicionistas Yudenich (a norte), Kornilov, Denikine e Wrangel (a sul) e Koltchak (na Sibéria, a oriente), tanto mais que em Odessa os marinheiros da esquadra francesa para aí enviada se revoltaram contra essa intervenção.

Na Hungria separada é proclamada a 21 de Março de 1919 uma república soviética presidida por Bela Kun, logo provocando uma reacção armada interna que derrubou este frágil regime em finais de Julho, sucedendo-lhe um regime autoritário sob a forma de uma regência, pelo almirante Horthy (mais tarde refugiado no Estoril). Na Checoslováquia, a república é proclamada ainda no final de Outubro de 1918, com o moderado Masaryck à cabeça, e a independência da Áustria é reconhecida pelo Tratado de Saint-Germain-en-Laie no ano seguinte. E na Finlândia (anteriormente um grão-ducado autónomo sob tutela dos Romanov), após uma sangrenta guerra civil entre “brancos” e “vermelhos” em 1918, estabelece-se mais uma república independente.

Finalmente, na Alemanha vencida e desmoralizada, a situação foi-se tornando verdadeiramente caótica. Inicialmente, com marinheiros, soldados e operários revoltados a exigirem paz imediata e a improvisarem “Conselhos” (Rat ou Soviets) locais, são os dirigentes sociais-democratas do SPD Ebert, Scheidemann e Noske que tomam conta do país, obtêm o acordo do Estado-Maior de Hindenburg para restabelecer a ordem e conseguem uma deliberação maioritária dos “Conselhos” para, em 19 de Janeiro, se realizarem eleições democráticas para uma Assembleia Constituinte. Esmagada nos primeiros dias do novo ano uma insurreição da extrema-esquerda (espartaquista) e sendo assassinados os seus líderes Karl Liebknescht e Rosa Luxemburg, o novo parlamente reunido em Weimar, com maioria de centro-esquerda, pôde legislar uma constituição moderna (de tipo “semi-presidencial”, uma novidade), enfrentar com sucesso um novo levantamento “soviético” na Baviera em Abril e, a partir de Maio, tentar minorar os efeitos mais gravosos do projecto de Tratado de Paz que lhes era apresentado pelos vencedores. Foi esforço baldado. No dia 19 de Junho, perante a divisão do parlamento, o governo Scheidemann demite-se. E na base naval de Scapa Flow, nas ilhas a norte da Escócia, a esquadra alemã que ali havia sido internada provoca um dramático auto-afundamento colectivo, antecipando-se à sua entrega aos aliados. Agora com Gustav Bauer como chanceler, no dia 23 o parlamento vota finalmente o “sim” e a 28 aquele social-democrata apõe em Versalhes a sua assinatura ao documento.

A vida desta República de Weimar será tumultuosa e cheia de dificuldades: além de outros amotinamentos, em Março de 1920 enfrenta o putsch de Kapp, direitista; as eleições de Junho seguinte manifestam uma certa viragem do eleitorado no mesmo sentido; como em Itália, grupos de rufiões provocam agressões físicas nas ruas a opositores políticos e alguns assassinatos, enquanto Hitler vagueia por Berlim. Em Janeiro de 1923, perante as resistências passivas encontradas, tropas aliadas ocupam o Ruhr, temendo-se uma nova guerra. Isso não acontece mas dispara uma crise monetária de híper-inflacção, que o governo conseguirá por fim controlar à custa de um brutal desemprego, oferecendo “mão-de-obra” para qualquer aventureirismo. E depois de várias tentativas de levantamentos insurreccionais de extrema-esquerda (comunista), é a extrema-direita de Hitler em formação que protagoniza em Março desse ano o “putsch da cervejaria” de Munique, que o leva à prisão onde escreverá o Mein Kampf, um ácido manifesto anti-liberal e anti-judaico. Seguindo o exemplo de Mussolini, começava aqui a terrível caminhada para o inferno na Europa.

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A Sociedade das Nações, criada em Versalhes (tal como a Organização Internacional do Trabalho, para responder à “questão operária” evitando novas possíveis revoluções sociais), antecessora da ONU, mostrou-se impotente perante as gigantescas forças assim desencabrestadas, além de que os Estados Unidos acabaram por nunca a ela aderir.

O marechal Foch foi uma das vozes que, de fora, mais pressionou os negociadores de Versalhes no sentido de castigar exemplarmente a Alemanha. Mas, perante os termos finais do Tratado, comentou desiludido: «não temos um tratado de paz, mas um armistício para vinte anos». Infelizmente (embora por outros motivos), verificou-se que tinha razão.

Tudo isto (e muito mais) se passou num curto período de tempo, há cem anos. Estamos a voltar a desenterrar velhos fantasmas? Ou a tentar reescrever páginas de uma história que julgámos já encerrada?

João Freire / Junho 2019

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