A Revolução Russa e os anarquistas no Brasil: um território a explorar

Ângela R. Martins; E. Sarmiento, Lená M. Menezes (orgs.) Revolução Russa: outros actores, cenários, abordagens e perspectivas. – Rio de Janeiro: Autografia, 2019, 145 pp.

Breve nota de leitura

1.

Cem anos volvidos, a Revolução Russa de Outubro de 1917 continua a suscitar interesse e debate entre os historiadores e um público cada vez mais globalizado pelas grandes companhias editoras. No portal da Amazon consegue-se recuperar mais de 2.000 referências monográficas com a expressão “russian revolution” (191 com a expressão “october revolution” e 38 com “soviet revolution”), boa parte delas edições ou reedições recentes de grandes narrativas da revolução. Na versão brasileira recuperámos 173 resultados para aquela expressão. A avaliar por este indicador de mercado, o interesse por aquele evento que foi considerado pelos seus protagonistas, desde o primeiro momento, como um acontecimento fundamental para a história da humanidade, enfileirando com as grandes revoluções, fica ainda assim atrás da “revolução francesa” (7.000 resultados) e da revolução americana (10.000 resultados). Entre as obras recomendadas (no portal americano) encontramos, à cabeça, as obras de Orlando Figes, A Tragédia do Povo: a Revolução Russa (1891-1924) (1998), Sean McMeekin, The Russian Revolution: A New History (2017), Sheila Fitzpatrick, The Russian Revolution (2017), Yuri Slezkine, The House of Government: A Saga of the Russian Revolution (2019), Richard Pipes, The Russian Revolution (1991), China Miéville, October: The Story of the Russian Revolution (2017). A par do esforço de actualização e de reinterpretação, assinamos a reedição da História da Revolução Russa de Leon Trotsky (1932, 2017) e, anteriormente, da obra clássica de Edward H. Carr The Russian Revolution from Lenin to Stalin 1917-1929 (1979, 2004).

Apesar da abundante produção recente, algumas destas obras “mais vendidas” (alguma dela também publicada no Brasil e em Portugal) actualizam o inquérito histórico, elaboram reinterpretações e narrativas, beneficiando da abertura dos arquivos soviéticos ao Ocidente na sequência do colapso da U.R.S.S., depois de 1991. Um historiador escreveria a propósito:

“Regressando ao Ocidente, é minha opinião pessoal que há dez anos nossa profissão chegou a um beco sem saída. As monografias refletiam mais frequentemente as preocupações políticas e culturais correntes do que os principais problemas da história soviética. A sua linha de argumentação era viciada pela ideologia e por modas muito mais do que em outros campos”[1].

É interessante notar que o editor da obra do historiador norte-americano Alexander Rabinowitch, The Bolsheviks in Power: The First Year of Bolshevik Rule in Petrograd (1976, 2007), afirme na apresentação que faz dela na página web [2]:

“Em contraste com tantos outros que trabalham no campo dos estudos soviéticos que se adaptaram ao clima predominante de desonestidade intelectual e cinismo, o Professor Rabinowitch não comprometeu sua integridade como académico”.

Ora, nesta procura pela verdade histórica, importa aqui destacar o papel militante dos anarquistas russos que, como protagonistas e vítimas da repressão, cedo denunciaram com o seu testemunho os princípios de organização autoritária do Partido Bolchevique, a actuação da Tcheka, as prisões e os fuzilamentos arbitrários, a perseguição de opositores, enfim, os valores e práticas que estavam instituídas como uma “ditadura sobre o proletariado”, numa época em que ainda não tinha sido formalmente constituída a U.R.S.S. Alguns textos de referência, como os de Alexander Berkman (Le Mythe bolchevique, 1920-1922), de Emma Goldman publicados no New York World entre 1920 e 1922, compilados em My Disillusionment in Russia (1923) e em My Further Disillusionment in Russia (1924), ou os de Voline (com destaque para La Revolution Inconnue, 1917-1921 (1947), obra quefoi publicada na Alemanha, na França e na Grã-Bretanha), teriam uma difusão quase circunscrita ao estreito mundo libertário[3]. Nos últimos anos têm sido difundidos obras que não apenas destacam a acção revolucionária dos anarquistas na Rússia durante a primeira fase da Revolução e o seu papel, embora como força minoritária, como retomam uma reflexão sobre os acontecimentos que conduziram à criação de um estado totalitário. Os trabalhos pioneiros de Alexandre Skirda sobre Kronstadt, sobre a participação dos anarquistas nos sovietes e a autogestão, sobre Nestor Makhno e a guerra civil na Ucrânia, publicados nos anos ’70, continuam hoje a ser publicados, principalmente em francês. Alguns destes temas viriam a ser retomados por Paul Avrich (1931–2006), The Russian Anarchists (1967) e Kronstadt, 1921 (1970). Frank Mitz publicou na Argentina, Antonin Gorelilik. El anarquismo en la revolución russa (2007), uma compilação dos textos do anarquista ucraniano e de documentos da organização Nabat.  Mais recentemente (2017), Carlos Taibo publica (em castelhano), Anarquismo y Revolucion en Rusia 1917-1921, uma obra que procura resgatar a memória libertária nos primeiros anos da revolução.

2.

Revolução Russa: outros actores, cenários, abordagens e perspectivas, obra organizada pelas professoras universitárias brasileiras Angela Roberti Matins, Érica Sarmiento e Lená Medeiros de Menezes (Rio de Janeiro, Autografia, 2019), reúne um conjunto caleidoscópico de curtos ensaios interpretativos e de investigação centrados em diferentes temas que interessam à análise histórica crítica da revolução e ao seu “impacto” no Brasil. Como afirma, João Neto a abrir o prefácio, é uma obra que visa fazer refletir, oferecendo uma “leitura desapegada da dicotomia mistificadora da revolução, e não trabalha para o conforto dos leitores que desejam encontrar comodidade em suas convicções e anseios” (p.7). Lená de Menezes, na sua apresentação, realça a luta ideológica em torno deste objecto historiográfico e “o silêncio [que] acabou imposto a alguns segmentos da esquerda” (p.16), alertando que se trata de “uma obra polémica, mas necessária visto o seu objectivo principal ser, justamente, o oferecimento ao leitor da possibilidade de encontros com outros actores – em especial os anarquistas -, com outros cenários, com outras ideias, com outras leituras e abordagens sobre um acontecimento que, definitivamente, modelou o século XX e permanece no horizonte do século XX” (p.17).

O Soviet como base frágil do Marxismo-Leninismo

A obra abre com um texto curto de Frank Mintz, historiador e militante da Confédération Nationale des Travailleurs-Solidarité Ouvrière (CNT-SO),  “O Soviet como base frágil do Marxismo-Leninismo”, escrito ainda na era soviética, no qual defende que, nos soviets, estavam ausentes a direcção política de um partido sobre as massas, nem acção decisiva dos operários sobre os camponeses e, neste contexto, a pouca eficácia da vanguarda política. Em 1905, os sovietes aparecem como “expressão de grande parte dos 106 milhões de proletários do campo e da cidade”, quando os revolucionários não passariam de 5.000 com poucos meios (p.30). Os sovietes aparecem, também em 1917, como uma forma de organização espontânea, de base popular, sem que nenhuma tendência revolucionária fosse capaz “de colocar em marcha milhões de trabalhadores do campo e das cidades” (p.33). As amplas liberdades consagradas pelo governo democrata de Kerensky num contexto de crise interna aguda, marcado pela fome, pela guerra e pelo conflito político, reforçaram o papel dos soviets como organização popular. No essencial, Minz realça nesta análise a subordinação dos sovietes ao poder bolchevique através de práticas repressivas emergentes organizadas pelo Partido Bolchevique ou através da Cheka (polícia política), um processo rápido essencial na construção de um Estado bolchevique autoritário.

Anarquistas e sindicalistas revolucionários na França depois da Revolução Russa

O segundo texto, de René Berthier, “Anarquistas e sindicalistas revolucionários na França depois da Revolução Russa” revela as controvérsias e dissidências entre sindicalistas revolucionários, anarquistas e socialistas que acompanharam os anos de 1919-1922 com consequências duradouras. Em causa estava não apenas a controvérsia sobre a natureza política e social do novo regime emergente, como também a subordinação de todo o movimento operário internacional à Moscóvia bolchevique e, no espaço nacional, dos sindicatos às directrizes emanadas por um partido político. Nesse processo que viu nascer nos anos ‘20 os partidos comunistas, desaparece o sindicalismo revolucionário entre a cisão comunista e o anarco-sindicalismo.  

Victor Serge: um revolucionário crítico, perseguido e esquecido

Lená de Menezes centra-se sobre a figura do anarquista russo Victor Serge (Bruxelas, 1890-México, 1947), autor de Ano I da Revolução (1928-1929), obra que escreveu já sob vigilância da GPU (“Victor Serge: um revolucionário crítico, perseguido e esquecido”). Nela traça o percurso biográfico singular, intelectual e moral deste militante que, sem abandonar a sua postura crítica, contemporizou com o novo regime, apesar de todas as dificuldades por que passou [4].

O Anarquismo na Arte Experimentalista Russa (1919-1921)

Cristina Dunaeva, professora de História de Arte da Universidade de Brasília, escreve depois sobre o papel do anarquismo entre os artistas experimentalistas, na sua organização em Moscovo e a sua presença no jornal Anarquia, publicado entre 1917 e 1918. Entre as suas ideias levadas à prática encontram-se os Atelies de Artistas Livres ou SVOMAS que imprimiram uma nova filosofia ao ensino e à prática artísticas. Segundo Dunaeva, “o conceito de Museus de Arte Contemporânea e de Arte Moderna e seus princípios museológicos são herdeiros, após décadas, dos Museus e Institutos de Cultura Artística” (p.99) criados entre 1917 e 1919.

Ano I da Revolução Russa no Brasil: um par de greves para duas abordagens

Alexandre Samis e Amir de Paula escrevem sobre o “Ano I da Revolução Russa no Brasil: um par de greves para duas abordagens”. Na primeira parte, procuram traços comuns entre as cidades de São Paulo e de Petrogrado: a segregação social urbana na cidade em crescimento, com a expulsão de moradores pobres, a elite económica; e nas formas de luta dos trabalhadores. Segundo eles, “os trabalhadores das duas metrópoles estavam lutando por uma cidade mais humana, sem segregação socio-espacial (…) a luta por melhores condições de trabalho estava vinculada à ocupação da cidade” (109). Num segundo momento, os dois autores procuram encontrar influências da revolução nos acontecimentos locais, numa altura em que os revolucionários bolchevistas (os “maximalistas”) eram saudados pela imprensa anarquista. Ora, mais do que as semelhanças, parece-nos que são as diferenças que esclarecem a dificuldade em levar por diante a estratégia da greve insurrecional, a ser levada a cabo a 18 de novembro de 1919. Nem o esforço de guerra do Brasil estava a levar o Estado à beira do colapso, como na Rússia, nem as estratégias dos anarquistas e sindicalistas revolucionários aqui passaram pela mobilização dos soldados e dos camponeses contra os senhores. Tal como ocorreu noutras partes do mundo, no final da guerra, resolvido o problema da fome generalizada nas cidades e restabelecida a autoridade do Estado, a burguesia pode restabelecer o seu poder e conter os ímpetos revolucionários vindos das classes populares, que pareciam então inevitáveis. Na Rússia, em breve o “comunismo de guerra” daria lugar na economia, por breve período, ao capitalismo liberal. 

Repercussões da Revolução Russa nos Movimentos Operário e Anarquista

Ângela Martins e Ética Sarmiento tratam da averiguar as “Repercussões da Revolução Russa nos Movimentos Operário e Anarquista” no Rio de Janeiro entre 1917 e 1921. Segundo elas, o Brasil “sentiu o impacto da guerra e, principalmente da Revolução Russa” (p.127). No entanto, reconhecem que por detrás das mobilizações e reivindicações populares estiveram os baixos salários, a carestia dos alimentos e das rendas de casa, a repressão social sistemática e um ambiente de incerteza quanto ao futuro (p.127). Na segunda parte do texto, as autoras referenciam o endurecimento da repressão social e a adopção de medidas legislativas que visavam a expulsão de imigrantes revolucionários. Descrevem depois o percurso de vida de um imigrante, padeiro original da Galiza, morador do Rio de Janeiro, que foi expulso em 1921, usando como fonte o processo-crime depositado no arquivo nacional. O objectivo foi mostrar que o seu recrutamento para o anarquismo resultou directamente da sua experiência enquanto trabalhador da panificação no Brasil e que, contrariamente à ideia policial vinculada na época, o anarquismo não era ali um fruto exótico. O leitor é assim levado a concluir que, tal como noutros contextos nacionais, que o endurecimento da repressão, legitimado pela diabolização de forças sociais emancipadoras, parece ter sido assim um dos efeitos imediatos da revolução na Rússia, a par dos debates que gerou nos meios operários.

3.

A colectânea de textos organizada por Ângela R. Martins, Erica Sarmiento e Lená M. Menezes apresenta um caleidoscópio de temas que, no seu conjunto, torna visível a participação dos anarquistas na Revolução Russa e os seus reflexos no Brasil.  Quase todos os ensaios refletem sobre diferentes tópicos que foram já tratados em textos que nem sempre são facilmente acessíveis para o leitor comum. Os dois textos de investigação oferecem pistas para trabalhos futuros. Nessa perspectiva, a obra apresenta-se certamente como uma novidade nas abordagens e perspectivas para muitos leitores interessados em explorar leituras menos conhecidas da Revolução Russa e constitui um estímulo para a investigação sobre o anarquismo no Brasil no primeiro quartel do século XX.

Paulo Guimarães

Pinhal Novo, 18 de Junho de 2019



Notas

[1] Andrea Graziosi, «The new Soviet archival sources. Hypotheses for a critical assessment ». Cahiers du monde russe, 40/1-2 (1999). Archives et nouvelles sources de l’histoire soviétique, une réévaluation, pp.16-17. (trad. nossa). Sobre este tema veja-se também Donald J. Raleigh, “Doing Soviet History: The Impact of the Archival Revolution”, The Russian Review Vol. 61, No. 1 (Jan., 2002), pp. 16-24. Esse período de grande abertura terminou em 2007 (R. Donadio, “The Iron Archives”, 22 Abril, 2007 (https://www.nytimes.com/2007/04/22/books/review/Donadio.t.html)

[2] The Bolsheviks in Power: The First Year of Bolshevik Rule in Petrograd By Alexander Rabinowitch. –  https://mehring.com/bolsheviks-in-power.html (último acesso 18-06-2019).

[3] Refira-se, como a excepção, a publicação da obra de Pedro Archinov, prefaciada por Voline, História do movimento macknovista: a insurreição dos camponeses da Ucrânia, pela editora Assírio & Alvim (Lisboa, 1976).

[4] A obra completa de Serge pode ser consultada em https://www.marxists.org/archive/serge/index.htm (em inglês)

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