Agora: Iconoclatas, desordeiros, violentos

O jornal A Batalha está a assinalar os cem anos da sua fundação com diversas iniciativas, depois de uma vida com fases heroicas e tumultuosas, outras difíceis e agora, depois do 25 de Abril, pacífica mas quase condenada ao véu da ignorância pública.

Entre as razões de tal obscuridade figuram três ideias-feitas – iconoclastas, desordeiros, violentos – que ainda perduram acerca dos seus promotores e prosélitos, fossem eles sindicalistas revolucionários, simplesmente libertários ou anarquistas mais ou menos bem intitulados. Atentemos em algumas coisas a propósito de cada um daqueles termos.

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Photo by Daria Shevtsova on Pexels.com

Quanto à recusa dos ícones, é verdade que o anarquismo histórico foi bastante ateu e anti-clerical, tal como foi avesso à glorificação dos heróis, mártires e salvadores-da-pátria, vistos como elementos decorativos de uma retórica que, entretanto, escondia os interesses privados e o domínio dos poderosos sobre os humildes e humilhados da Terra. Porém, também eles – os adeptos da Anarquia – não escaparam a alguma mitificação do próprio conceito e, sobretudo, dos gestos de alguns dos seus auto-sacrificados militantes (um Kropótkine, uma Louise Michel, um Durruti), bem como dos símbolos que, malgré eux, os identificavam mas nos quais eles acabaram por se reconhecer: a bandeira negra (que era uma espécie de negação de qualquer bandeira, ou então um sinal de luto perene), a barricada do Maio-68, o A envolvido num círculo ou o anarchik da banda desenhada que há anos inventivos italianos criaram granjeando algum sucesso imagético…

Fautores de desordem, por certo que os anarquistas sempre foram, no que toca à recusa de instituições autoritárias, centralizadas e monolíticas que ainda nos séculos XIX e XX alguns de nós conhecemos, muitos leram sobre o  assunto o suficiente para fazerem delas uma ideia razoavelmente correcta, e das quais todos ouviram falar sem perceberam bem o que aquilo era ou representava. Mas, surpreendendo positivamente algumas pessoas menos preconceituosas, também houve não poucos anarquistas muito organizados – nas suas cabeças e nas suas agendas – e sindicalistas para quem os registos sistemáticos e a estatística constituíam elementos essenciais de gestão de uma “economia social” dirigida à satisfação das necessidades de todos os membros úteis de qualquer comunidade de trabalho ou de residência. Isto, com um mínimo de burocracia e de cargos sem controlo das “bases”, e sem necessidade de grandes regulamentações ou disposições punitivas. Contudo, é verdade que esta desconfiança acerca dos “chefes” também os prejudicou, com debates escusados e falta de resposta quando a urgência das circunstâncias exigia medidas imperativas – isto porque “a mais alta expressão da ordem… sem coacção” (segundo o geógrafo Reclus) se situava num futuro ainda muito distante.

Por último, a questão do emprego de meios violentos para combater as opressões económicas ou políticas sempre constituiu um motivo de hesitação, de dúvida ou mesmo de divisão no seio desta “tribo sem chefes”. Uma coisa é certa, em seu favor. É que os anarquistas nunca mandaram outros pôr bombas ou fazer atentados: os que propugnavam tais meios, faziam-no eles próprios. Mas é verdade que estes obstinados suscitaram geralmente o respeito, quando não a conivência ou a compreensão da maior parte dos seus correligionários. E alguns foram elevados à categoria de “mártires da causa”.

Há porém duas verdades históricas que convém ter presentes: é que, entre cerca de 1870 e 1940, a bomba e o atentado pessoal foram métodos utilizados em larga escala por muitos outros revolucionários além dos anarquistas. Em Portugal, por exemplo, nem o rei Carlos, nem o presidente Sidónio, nem o chefe do governo Granjo foram mortos por anarquistas. E, actualmente, é difícil encontrar gente reivindicando essa ideologia envolvida em tais acções. Para o período 1968-2007, o insuspeito Memorial Institute for the Prevention of Terrorism só encontrou entre os autores destes 12.325 “incidentes” pessoas classificadas como anarquistas em 1% dos casos, contra 3,5% de esquerdistas, 6,5% de diversos outros, 21% de religiosos, 30% de comunistas ou socialistas e 38% de nacionalistas ou separatistas.

Contudo, entre os libertários também houve sempre quem se demarcasse de tais caminhos. No passado, a aventura da “bande à Bonnot” (posta em cinema por Philippe Fourastié e ao qual Jacques Brel achou por bem dar o seu contributo como actor) foi classificada por muitos, sobretudo os empenhados no sindicalismo da classe operária, como “desvio apache”, expressão que contém algum grau de reprovação (apesar da talvez simpática evocação nativa norte-americana).

Correntes de pensamento e de práticas minoritárias esquisitas dentro desta “nebulosa libertária” também sempre as houve, geralmente acolhidas com simpatia pelo main stream: casos do esperantismo, do pacifismo anti-militarista, do auto-controlo da natalidade, do naturismo, das comunidades de vida e de trabalho, do feminismo, do educacionismo (de que só resta o vestígio d’A Promotora, ao Calvário, em Lisboa) e mais tardiamente do cooperativismo e do ecologismo. Outras, porém, suscitaram dúvidas e reticências, como a do chamado amor livre ou “o anarquismo de partido”.

Na nossa época, tivemos três fenómenos de movimentos sociais marginais que foram associados ao filão anarquista: os “autónomos”, dos anos 70 e 80, alguns dos quais adeptos de formas de guerrilha urbana; os “anarco-punks”, sem pensamento codificado mas reivindicando o seu género de vida livre (mais livre que o dos ciganos); e, em anos mais recentes, a ocasional presença de grupos violentos, os Black Bloc, que sempre aparecem quando se convocam grandes manifestações de carácter internacional. Porém, se aprofundarmos os argumentos brandidos por estes movimentos, dificilmente encontramos referências ao pensamento anarquista elaborado desde o século XIX. É mais o “estilo” das suas acções e atitudes que faz jornalistas e analistas apressados assimilarem-nos ao “anarquismo actual”. E quanto aos Black Bloc, de quem não se conhece qualquer ideia, é legítimo que se pergunte: quem são? donde vêm? como se treinam e coordenam? alguém os financia? o que pretendem?

No espectro das opiniões políticas é sempre difícil situar a filosofia anarquista ou libertária.  Mas é muitas vezes necessário, para perceber “quem é quem”.

Não ser de esquerda nem de direita, é coisa difícil de entender (e para um marxista calejado, quem assim se diz só pode ser “de direitas”). Também sabemos que o “centrismo” (incluindo o “centrismo social”) é quase sempre esmagado pelo peso dos sem-opinião, do marais (que não é o “pântano” de que um dia falou Guterres, o actual secretário-geral da ONU que clama no deserto). E que as “alternativas de rotura” acabam muitas vezes a reboque de um irresistível movimento reaccionário ou mesmo sob as abas de um carismático líder autoritário.

Apesar de tais dificuldades, é isso que tenta descobrir o pensamento libertário.

E a este se poderia colocar a pergunta clássica: trata-se de mais uma variedade de humanismo?

JF / 16.Mai.2019

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