Agora: Abril, Setembro, Março, Novembro

Estes foram os momentos de alvoroço que conheceu a transição do regime autoritário para a democracia em Portugal, também pontos cruciais do encaminhamento político do país e do futuro de todos nós, que já leva 45 anos de (in?)cumprimento.

As “massas” (humanas) agitavam-se então, ao sabor dos seus próprios anseios, mas muito estimuladas por agrupamentos partidários, pela luta noticiosa (e ideológica) que se travava na comunicação social, pelo clima interno vivido em cada empresa, instituição ou localidade. Por alguma razão, a maioria acreditava no método democrático de se objectivar uma orientação maioritária e uma legitimidade para os ocupantes do poder, e por isso acorreu maciça e ordeiramente às urnas para designar uma “Constituinte” e, um ano depois, para a entrada em vigor de um regime político dito semi-presidencial, com a “esquerda moderada” de Mário Soares e Ramalho Eanes a assumirem os cargos principais.

people walking on side of road near tram
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O golpe-de-Estado de 25 de Abril e o processo que se lhe seguiu foi obra de militares, de oficiais jovens e de baixa patente que haviam suportado intenso esforço de guerra em África. Fruto do sistema que os formara, eram quase totalmente incultos em matéria política e, por isso, permeáveis às influências partidárias, caudilhistas ou revanchistas que logo os assediaram. Alguns, sentiram-se mesmo vocacionados para protagonizarem um vanguardismo próprio de zonas tropicais e de bom tom em certos meios intelectuais parisienses. Apenas meia-dúzia deles dispunha de cultura e conhecimentos para tentar evitar caminhos perigosos que acabariam em desastre: guerra civil ou intervenção externa. Deste modo, conseguiram aproveitar as lições da experiência republicana de 1910-26, evitando a “questão religiosa”, a partidarização legal da oficialidade e os excessos da demagogia parlamentar. Mas havia agora a questão da descolonização – mais difícil, complexa, visceral, urgente e iniludível – que acabou por ser resolvida à maneira castrense do “nó górdio”: cortou-se “a direito”, ou o mal pela raiz. Os resultados foram dolorosos – sobretudo para os próprios povos colonizados. Mas, aqui chegados, poderia ter sido feita de outra forma? Talvez sim, mas ainda ninguém explicou muito bem como. E já é tarde para o saber.

Numa perspectiva ético-histórica, pode perguntar-se se os “militares de Abril” apenas desfizeram aquilo que os seus mais antigos haviam feito em sentido contrário – a Ditadura e o Estado Novo –, resgatando de alguma maneira esse passado pouco glorioso. Ou se, em ambos os casos, foram levados a intervir (fora-da-lei do Estado que serviam) para dar vazão a um sentimento nacional mais profundo. Ou ainda até que ponto estiveram em causa os seus próprios interesses de corpo profissional. É matéria que cada qual ajuizará como souber.

Na evocação destes 45 anos da “revolução de Abril” – e pode falar-se de revolução pela profundidade das medidas institucionais que daí resultaram, mas sobretudo pela larguíssima adesão popular, imediata e sincera, que logo suscitou – foram divulgados interessantes documentos e testemunhos sobre um dos episódios cruciais do “PREC”. Sobre o “11 de Março” (tal como o “25 de Abril”, o “28 de Setembro” e o “25 de Novembro”), quem se interessar por conhecer melhor o que se passou em cada uma destas jornadas tem já à sua disposição bastantes livros, análises e documentos, certamente parciais e contraditórios entre si, mas que possibilitam a cada um de nós – estivesse ou não perto dos acontecimentos – formar a sua própria opinião.

Conhece-se já bastante sobre o que foi o MFA, as suas correntes internas (spinolistas, gonçalvistas, otelistas, “esquerda militar”, SUV’s, etc.), os grupos políticos que se lhe aproximavam, infiltravam ou combatiam, e também alguma coisa sobre os principais chefes militares que então desempenharam funções políticas institucionais.

Há, porém, duas fontes de informação que permanecem quase completamente obscuras e que é legítimo supor também tivessem influído no desenrolar dos acontecimentos, com maior ou menor peso: as direcções dos principais partidos políticos (nos seus debates internos e por via de directivas não-públicas emanadas para a actuação dos seus “homens de confiança”); e os “serviços secretos” das principais potências externas interessadas na evolução portuguesa (como seria certamente o caso de americanos, russos, espanhóis, ingleses e franceses, talvez também de alemães e de israelitas). Sobre isso, haverá que esperar ainda muito mais tempo.

JF / 25.Avril.2019

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