Agora: Magros da fome, gordos do excesso

Não, não me refiro às(aos) “modelos” de linhas finíssimas, que parecem copiadas das formas despojadas dos arquitectos actuais. E não estou a pensar nos lutadores de sumo, que sugerem os gansos ou os esturjões engordados à força para deliciar os frequentadores dos restaurants chic cinq étoiles. Estou, muito realisticamente, a lembrar-me da diferença crescente entre os níveis de vida muito pobres ou miseráveis a que parecem estar sempre condenados milhões de homens e mulheres, crianças, jovens e idosos – seja em continentes distantes e dependentes, seja nos próprios países ricos – e, no outro extremo, os dez por cento dos mais abastados e poderosos do planeta. E em como isso seja talvez inevitável e o-preço-a-pagar por termos uma sociedade aberta e não inteiramente sujeita ao querer de apenas uns poucos – embora devamos todos fazer o máximo ao nosso alcance para reduzir tal gap a termos minimamente aceitáveis para a dignidade humana.

gray scale photo of trees
Photo by Ian Turnell on Pexels.com

Realmente, ainda agora uma tragédia climática se abateu sobre a região central de Moçambique, fenómeno que não é inédito. Os ciclones no Índico ocidental, associados ao regime das moções, são ali frequentes, tal como os ventos de 180km/h nessas circunstâncias. O que ali foi trágico ver-se foi a situação de pobreza – nas habitações e restantes necessidades da vida quotidiana – de enormes massas de população que “o progresso” concentrou em volta das cidades, perdendo o hábito e o saber das machambas de auto-subsistência adquiridos ao logo de séculos de vida rural, paupérrima mas resistente. É óbvio que perante tais ventos e inundações também as aldeias tradicionais teriam sido destruídas. Mas também é certo que as guerras e a atracção urbana desarticularam a forte simbiose existente entre as comunidades humanas e o meio rural natural naquelas regiões tropicais. Quando inicialmente os nossos meios-de-informação veiculavam a “destruição de 90% da cidade da Beira”, não era à cidade edificada em termos modernos que se referiam, como se poderia depreender: seria a esta enorme cintura de musseques peri-urbanos, que nem o colonialismo foi capaz de evitar, nem os auto-governos nacionais puderam conter – se é que não contribuíram mesmo para tal concentração. A resposta humanitária parece ter sido boa, mas é o modelo de economia e de vida social que urge reconsiderar para todas estas regiões desprezadas do planeta.

Enquanto isso, Lisboa pavoneia-se de “pós-modernismo” e de turistas, Veneza “vai ao fundo” com eles, e as novas classes médias só pensam em férias nas Caraíbas ou no Qatar. De facto, os choques visíveis destas diferenças sociais à face da Terra, parecem a muitos cada vez mais insuportáveis: tenham eles boas ou más intenções; e vão em direcção certa ou errada.

Mas depois do esboroar das várias ideologias libertadoras que prometiam os “àmanhãs que cantam”, é possível que devamos aceitar a ideia mais modesta de que “sempre” (sejamos modestos: nas próximas décadas) haverá diferenças económicas e sociais, tal como há culturas diversas, variadas crenças religiosas e pensamentos racionalistas, e cada pessoa tem a sua própria individualidade, apesar dos constrangimentos sociais, das transigências e cooperações práticas, das identidades colectivas, das concorrências e dos conflitos que nos atravessam a todos. Trabalhar – na profissão, na economia, na vida social, na ciência, na política ou na criação cultural – para remediar os aspectos mais negativos destas situações, eis um programa ético que cada um avaliará se pode adoptar para seu uso próprio.

Foi já há tempos que o economista José Manuel Moreira publicou em volume intitulado Compreender para Mudar o Estado a que Chegámos (ed. Bnomics, 2017) as crónicas e ensaios que dispersara durante vários anos por jornais e outros suportes comunicativos. De entre tantas outras críticas contundentes que ele faz à nossa economia política – muito dominada pelo estatismo – respigamos estas passagens significativas: «Primeiro as pessoas. Este é um dos motes mais embusteiros em campanhas eleitorais. Um slogan que cavalga a ideia da superioridade do Estado em relação ao Mercado. Insinuando que o capitalismo tende a “colocar os marcados antes das pessoas”, obrigando, por isso, à intervenção política para devolver às pessoas o seu devido ligar. […] Foi assim que, dos cerca de 5% do produto nacional até finais do século XIX se chegou aos cerca de 50% de gasto público. Transformando o Estado, dito social, numa monstruosa máquina democrática de redistribuição compulsiva da riqueza da sociedade por três vias: transferência, tomando aos Pedros (favorecidos) para dar aos Zés (desfavorecidos); fornecimento de bens e serviços gratuitos ou a baixo custo, confiscando a uns (os contribuintes) para dar a outros (os utilizadores); e por meio de diversas formas de regulação ou de proteccionismo. […] Ora, só pondo a nu o princípio organizador das nossas sociedades – o clientelismo político – se percebe como um Estado protector de direitos se transformou numa fraudulenta máquina de redistribuição. E se entendem tantas resistências e espúrias concertações. Até ao dia em que reformas “politicamente impossíveis” se tornam “economicamente inevitáveis”…» (p. 34). De facto, vale a pena perceber como, nas palavras do prefaciador do seu livro, o autor passou de um tempo em que «éramos jovens, talvez por isso rebeldes e inconformados e ambos estávamos sincera e generosamente convencidos da viabilidade da empreitada de construir o mundo melhor» para que tenha «trocado Marx por Hayeck» mantendo-se «mesmo muito parecido […] com a pessoa generosa e inconformada, sem medo de estar contra a corrente, que conheci no ‘Piolho’ há 40 e tal anos» (p. 12-13).

Este é o lugar do debate livre, e esclarecido tanto quanto possível.

Porém, as novas tecnologias da informação estão mesmo a transformar o funcionamento das sociedades modernas de modo muito acentuado. Com elas, os pobres-de-espírito têm a ilusão de superar as suas limitações, as pessoas normais e equilibradas beneficiam imenso do alargamento da sua rede de comunicações interpessoais e os estupores sentem-se muito mais à vontade para as suas malfeitorias. Como isto é novidade para todos, afligimo-nos sobretudo com os riscos das intoxicações informativas, de novas conspirações ou velhas corrupções em outra escala, com a criminalidade potenciada por tais meios. Mas as sociedades vão quase certamente reagir e acabar por meter alguma ordem ou regulação nestes domínios. São sobretudo os guionistas-antecipadores-do-futuro quem geralmente pintam os quadros mais catastróficos. Há um século atrás, começava a difundir-se o uso privado do veículo automóvel e, esse, foi um salto semelhante (para a época), que arrastou atrás de si uma nova economia (fabricações e montagens metalo-mecânicas, petróleo, borracha, assistência e venda, pavimentação, corridas, etc.), mas também a criação de regras e códigos-da-estrada, de escolas de condução e policiamento especializado, etc. A sociedade “motorizou-se” e enfrentamos agora outros desafios: os do efeito-de-estufa atmosférico, da poluição dos oceanos e do ingurgitamento das cidades. Só que agora tudo muda muito mais rapidamente e urbi et orbi, com as comunicações electrónicas a ultrapassarem alegremente as fronteiras e não havendo, por isso, um Estado que isoladamente possa assumir tal encargo – que terá de ser, antes, uma comunidade internacional, de contornos ainda mal definidos e de interesses frequentemente contraditórios.

Vejamos é como, nos próximos meses e anos, os governantes vão gerir os mais delicados problemas que têm entre mãos e como os povos e as opiniões públicas (onde elas realmente existem) os percepcionam e em função disso se comportam.

JF / 5.Abr.2019

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