Agora: Marcas neste país

Por esta região andaram gregos e romanos, godos e muçulmanos. Afonso Henriques, filho rebelde e ambicioso, conseguiu talhar o seu próprio território de poder, reconhecido em Zamora e selado a ouro pelo Papado. Frades, senhores e cavaleiros negociaram algumas parcelas, sob a canga das quais se ajustaram servos, laboradores e apanhadores miseráveis (de peixe, caça ou do que viesse à mão).

O rei Afonso III assenhoreou os Algarves islamizados. D. Dinis teve visão de administrador e assinou o tratado de Alcanizes com os primos de Lião e Castela para fixar a fronteira Leste, mas os seus sucessores ficaram a menos. No final do século XIV os burgueses de Lisboa mostraram ter já algum peso político e foi D. João I quem abriu uma nova época para Portugal no concerto europeu: a protecção dada pelos ingleses à nossa porta-das-traseiras permitiu o salto extraordinário da expansão ultramarina nos séculos de Quatrocentos e Quinhentos, com bons impulsos dados por um D. Duarte literato, um D. Afonso V do Marrocos e das ordenações, um D. João II grande estratega e um “venturoso” D. Manuel; também avanços na ciência náutica, no conhecimento e na cultura, atingindo o estatuto de potência mundial. Durou dois séculos mas imortalizou um país, muito para além da aristocracia e da igreja reinantes: marinheiros, guerreiros, governadores, missionários, mercadores, escritores e poetas, bandeirantes e investidores subiram ao proscénio; mas na retaguarda consolidavam-se os agricultores, e também pescadores, comerciantes, artesãos e almocreves.

O sucesso também fez a nossa rápida decadência, ultrapassados por vizinhos de uma outra escala. E as tensões entre duques, condes e o rei de Lisboa eram perceptíveis, ainda mais quando este passou a residir em Madrid, o que não ofusca o mérito dos Restauradores de 1640. Os cismas na igreja de Cristo também tiveram repercussões por aqui. E, como acontecera desde Windsor e haveria de prolongar-se até hoje, numa Europa sempre instável a diplomacia voltou a ter uma importância primordial, maior do que a força das armas (embora não a dispensassem). Mas, para finais de Seiscentos e século XVIII, o Brasil foi a joia que “dourou a pílula” a uma aristocracia e um clero que só o primeiro-ministro Carvalho e Melo foi capaz de meter na ordem com mão-de-ferro: para tentar suscitar a consciência de uma nação que valesse a pena, e a construção de um Estado de instituições e responsabilidade. Todavia, além dos abusos e exageros, era já tarde demais e insuficiente para integrar a génese do mundo moderno que se anunciava: no pensamento, na ciência, na indústria, na educação. A escravatura, o açúcar, o ouro brasileiros foram também a nossa droga, a nossa desgraça.

Já dentro da era das Revoluções, valeu-nos a aliança britânica e a capacidade de decisão de D. Pedro IV, eloquentemente comprovada no terreno dos factos políticos: independentizou o Brasil (que de outra forma talvez acabasse retalhado por outros imperialismos) e lançou Portugal para o constitucionalismo liberal, que os seus marechais quase iam estragando nas décadas seguintes. Mas dessas aventuras resultaram  as bases do nosso Estado moderno (que iria subsistir durante mais de século  e meio) e, sobretudo, a consciência popular de uma nação: com uma classe política restrita e auto-referenciada, uma burguesia fracota e uma aristocracia resistente, um funcionalismo público indolente mas bem entrosado sentado à mesa-do-orçamento, largos contingentes de trabalhadores da terra e da oficina pobres e mal orientados, e pequenos proprietários, rendeiros e negociantes “fazendo pela vida”.  Enquanto por África e outros domínios coloniais, era a estagnação, a rusticidade ou miséria da maioria, e a falta de recursos para a promover.

A República foi-se num ápice de paixões, fortes empenhamentos e alguma incompetência. Os sindicalistas recalcitrantes e internacionais foram aplastrados. Vieram os militares e sobre eles um Salazar que, como Pombal, meteu o país na ordem: só que o país era outro, a ordem também; e o resultado foi (além dos “safanões”) um novo atraso face à concorrência internacional, valendo contudo a habilidade diplomática e o capital do império ultramarino para salvaguardar a independência nacional. Os  “militares de Abril” marcaram uma nova etapa nesta longa história, repondo Portugal na Europa, sem deixar de viver em parte na diáspora. Sob a égide da Democracia (com D grande) e num quadro de “grandes negócios”, tenta-se agora uma modernização à pressa, quando o moderno escorre e se esvai de maneira acelerada em direcção a alguma coisa que ninguém sabe muito bem como será. Um “movimento internacional lusófono” poderia ser uma ideia interessante na esfera que foi pensada por Agostinho da Silva, mas não se vê que género de elites políticas poderiam agora dar-lhe expressão. Porém, na nossa Lisboa simpática (embora às vezes irritante), voltámos a ter, como nos tempos renascentistas, uma cidade de “muitas e desvairadas gentes”.

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Entretanto, revendo-se os portugueses nesta tão distinta estirpe de governantes, contentemo-nos por agora em celebrar o Rei Momo.

JF / 3.Mar.2019

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