Ensaio: Movimentos sociais, religiosos, culturais e políticos

Verdadeiramente, as classes populares só começaram a entrar como protagonistas na esfera política – isto é, imiscuindo-se nos assuntos de Estado e nos negócios públicos – com o advento da Modernidade, em particular na Revolução Francesa. Até aí haviam sido, neste campo, massa-de-manobra para a acção intencional de soberanos, de poderosos generais ou grandes senhores em títulos e cabedais, com meros fogachos violentos de protesto ou reivindicação quando a sua sobrevivência chegava aos limites, perante impostos, corveias, requisições ou uma tremenda desigualdade no acesso à terra, da qual quase todos dependiam.

Nos dois últimos séculos do segundo milénio DC, o “povo” emergiu como actor decisivo em muitos debates e contendas nacionais, intervindo aqui e ali com a sua força colectiva esmagadora, mas mais frequentemente sendo usado como argumento e justificação para o agir das elites políticas que se iam afirmando como seus representantes ou para, também em seu nome, os detentores do poder conterem ou reprimirem manifestações de rebeldia, ou então acenarem às massas com projectos expansionistas onde elas poderiam vir a encontrar o seu maná. Foi nesta base que se vieram a formar facções, líderes carismáticos, caciques e correntes sectárias perduráveis, cujos objectivos e ganância de acesso ao poder (partilhado ou mesmo açambarcado, e às benesses dele decorrentes) só eram igualados pela animosidade com que encaravam os seus adversários.

Algumas consciências mais perspicazes e com algum sentido crítico do passado perceberam que, assim como as crenças religiosas haviam sido capazes de ir alterando o mundo sem necessariamente disporem dos instrumentos coercivos dos governos, também certas “ideias justas” poderiam, a prazo, ir trilhando o seu caminho entre os indivíduos e as comunidades, com o fim de melhorarem estruturalmente a sua existência. Os pensadores “iluministas” foram decerto fundamentais para enfraquecer os poderes religiosos que ainda tanto condicionavam a Europa. Mas, longe dos paroxismos revolucionários e das mobilizações patrióticas que envolviam volumosas populações, foi o abolicionismo humanitarista que primeiro se configurou como movimento social moderno, desinteressado do poder de Estado e visando, por uma acção continua e não-radical de educação, de influência e de pressão junto dos órgãos cimeiros das nações, as reformas legislativas e de costumes necessárias para acabar com a escravatura, o seu tráfico e a sua justificação económica, com os haréns e os eunucos,  tentar melhorar a sorte das mulheres prostitutas e, em geral, retirar o sexo feminino da condição social subordinada que desde sempre fora a sua. Pouco participou este movimento na queda dos regimes políticos tirânicos e imperiais, e nada na substituição da guerra por processos menos destrutivos nas relações entre os estados, a não ser algumas novidades na prática de arbitragens para resolver certas pendências internacionais, na habituação a algumas normas de regulação multilaterais e na fixação convencionada de um esboço de direito humanitário.

Um pouco da sua senda, mas com larga influência do revolucionarismo político herdado das épicas Bastilhas, o movimento operário constituiu-se em poucas décadas com uma marca de classe social (útil mas subordinada) e um sentido internacionalista que superou em ambição transformadora tudo o que até então se conhecera como dinâmica de aceleração da história. Desafiou as leis da economia, forçou reformas da acção social do Estado e avanços do direito internacional, e alterou os panoramas partidários, fosse no respeito das regras democráticas ou por meio de golpes de força que, nalguns casos, conquistaram o poder e instauraram regimes de uma natureza até então desconhecida, mas de tipo ditatorial. Em alguns países europeus, houve esboços de movimentos camponeses que procuraram seguir-lhes o exemplo, porém com um sucesso muito reduzido.

Os movimentos religiosos (se assim lhes podemos chamar) são de uma espécie diferente. Têm no cerne uma cosmovisão – do Universo, da Natureza, do Homem e do Tempo – que responde às mais simples e imediatas perguntas que qualquer ser pensante sempre se coloca (porquê? porquê? porquê?), mas fazem-no invariavelmente (ao contrário da ciência) de uma maneira afirmativa e inapelável, a partir de algum fenómeno extraordinário de revelação divina a um profeta ou da profunda introspecção de um inspirado. Assim considerados, podemos dizer que são estes os fenómenos sócio-culturais mais antigos que conhecemos e perduraram ao longo dos tempos, arriscando-se ainda a persistirem indefinidamente. Uns, mais fechados e herméticos, mantêm-se por reprodução endógena do grupo; outros, são messiânicos e proselitistas, buscando a conversão de terceiros. Todos incluem uma dimensão transcendental, rituais e exercícios disciplinares de auto-controlo das pulsões próprias naturais, de interditos e objectos sagrados, de valores comportamentais, de recitações e momentos de recolhimento interior, bem como gestos formalizados de integração comunitária. E é aqui que, quase sempre, tendem a diferenciar-se entre si (e não poucas vezes a chocar-se) – seitas, igrejas, textos, templos, ícones e hierarquias sacerdotais – os diversos movimentos e identidades religiosos; porém, só mais raramente face aos profanos, vistos antes como motivos de missão e salvação.

Podemos ter assim uma história das religiões, como também é legítimo que o pensamento científico busque a compreensão das características e do alcance dos movimentos religiosos, como expressão cultural, e nas suas interconexões com outros domínios da vida social (a política, a economia, a inserção geo-climática, etc.).

Quanto ao que poderemos designar por movimentos culturais, esses, apesar de terem uma história também longa, conheceram etapas e modos de propagação muito diferentes entre si. Durante séculos e milénios plasmaram-se em objectos expressivos anexos à magnificência das pequenas cliques de poder material e simbólico (reis, imperadores ou sumos-sacerdotes), saídos da arte e do génio de alguns homens de especial sensibilidade e talento: foram as “escolas” e os “estilos” com que mais tarde classificámos a sucessão de típicas obras arquitectónicas, picturais, escultóricas, musicais, dançarinas, teatrais ou recituais-literárias que, fazendo sucesso no seu tempo, puderam ser preservadas e mostrar para a posteridade a sua excelência. Os “artistas” configuraram assim, em sucessivas centúrias, uma classe de gente à parte, quase sempre pobre de dinheiros e estipendiada-a-soldo por poderosos, todavia incapazes de penetrar as infinitas subtilezas das suas criações – que por isso, e só por isso, os respeitavam. Este facto acabou por gerar nos produtores-de-arte uma psicologia social própria e particular: ego-centrismo desmesurado; desatenção aos custos e às consequências; envaidecimento pelos aplausos suscitados; acentuada concorrência inter-pares. Daqui, sendo esta também a percepção externa corrente acerca do grupo (que o meritório esforço das academias e dos conservatórios, dos museus e das exposições não alterou), nenhum especial mal veio ao mundo.

Contudo, muita coisa mudou também neste domínio com o advento da Modernidade e a projecção pública e social multiplicada (pela imprensa, os espectáculos empresarializados, a literacia decorrente da instrução obrigatória, etc.) que, a partir daí, a cultura foi assumindo, incluindo pela recuperação e reformulação de práticas populares recreativas antigas (agora sob o modelo da folk art) e, já no nosso tempo, com a “cultura para todos” e feita-por-qualquer-um da pop art (e em especial da pop music), além das novidades técnicas da fotografia e do cinema, e das formas maciças de difusão áudio-visual. Eis-nos pois chegados à época em que, num ambiente geral de abundância de recursos de toda a ordem, os referidos traços sócio-psicológicos do “meio artístico” se expandiram notavelmente por camadas muito alargadas da população, especialmente nos escalões etários inferiores, ajudando a configurar traços marcantes daquilo que alguns designam por “individualismo e hedonismo de massas contemporâneo”. Neste sentido, através de dinâmicas marcadas pela novidade, pelas modas, a competição e a espectacularidade, podemos também talvez falar de “movimentos culturais” com um grau de autonomia próprio.

Finalmente, voltemos aos movimentos sociais e à política. No auge da influência social atingida pelo operariado moderno, um conhecido sociólogo francês (Touraine) definiu o conceito de movimento social com base na existência auto-reconhecida pelos indivíduos que o corporizavam de três “princípios”: identidade (uma noção do ser colectivo em que eles se integram, neste caso a “classe operária” ou “os trabalhadores”); oposição (o agente social que lhe faz obstáculo, ou seja, o patronato, eventualmente também o governo); e totalidade (o campo em que um e outro se enfrentam, que podia ser visto como o modo como se ia gerindo o desenvolvimento económico e social ou, noutros termos, a historicidade). Posteriormente, este conceito foi aplicado também a causas e movimentos interclassistas como “os jovens”, o feminismo, o ecologismo, o pacifismo ou mesmo o nacionalismo (de maneira mais problemática por Wieviorka, para o caso polaco, sob o comunismo), não longe do modo ensaísta como o americano Paul Goodman entrevira uma “revolução libertária” (cuja “logística” assentava num “novo populismo”, na juventude como “contra-força” e num despertar do “profissionalismo”) que se estaria a pôr em marcha contra o “sistema organizado” estatal-capitalista, dominante no segundo pós-guerra.

É verdade que, ao questionar os princípios gerais em que assentam as sociedades desenvolvidas actuais, qualquer um destes movimentos sociais acaba por, ao menos implicitamente, desafiar os grandes interesses instalados, seja na esfera económica ou governamental, na ordem simbólica da “normalidade estabelecida” ou no sistema de relações internacionais. Nesse sentido, os movimentos sociais, mesmo aqueles que recusam conscientemente intervir no espaço político dos partidos e das ideologias, podem vir a levantar problemas cuja resolução implica cruciais decisões-de-Estado que, em regimes democráticos, deveriam porventura ser colocadas ao conjunto dos cidadãos. Pense-se, por exemplo, na opção nuclear para resolver o paradigma energético, na “programação genética”, na alienação de soberania em favor de uma entidade supra-nacional (caso da UE) ou mesmo na negociação e arbitragem obrigatória para os conflitos inter-estatais. Porém, para isso, é preciso que haja representantes idóneos e intermediários isentos e competentes capazes de formular os termos em que, com regras, consciência e ponderação, tais questões possam finalmente ser dirimidas directamente por uma clara maioria da população, sem espírito vingativo e, como se dizia no desporto, “com honra para os vencidos”.

Porém, lembrando-nos dos urbanos protagonistas das “primaveras árabes”, dos jovens “indignados”, do movimento dos “99%” ou agora do “me too”, dos “gilets jaunes” ou do “populismo direitista” em germinação, cabe perguntar se, estas, não serão expressões de um movimento social em esboço mas, simultaneamente, já sem objectivo político atingível?! Numa época de hiper-inflação informativa (muito alargada pelas “redes sociais” e as fake news), os movimentos de protesto, no ciber-espaço ou mesmo nas ruas (com ou sem violência), poderão então ser considerados como os novos movimentos sociais possíveis no estado civilizacional a que chegámos, à beira de proezas surpreendentes da ‘inteligência artificial’ e talvez do início de uma colonização humana em novos planetas? Se assim for, teremos provavelmente de rever a conotação positiva e socialmente progressista que atribuíamos aos movimentos sociais clássicos (tanto as correntes políticas emancipalistas como os cientistas sociais mais atentos aos conflitos e simpatizantes “do ponto de vista dos mais fracos”), para os encararmos sob uma neutralidade axiológica interpretativa mais rigorosa, admitindo também sem preconceitos a hipótese reaccionária, autoritária e liberticida.

Em tese, os movimentos sociais podem naturalmente gerar e sustentar (no plano ideológico e até, em certa medida, partilhando entendimentos e recursos humanos) formações que actuem no espaço político institucional, embora sem alianças ou laços vinculativos. Isto, na medida em que o movimento social tenha suficiente coesão, identidade e um projecto societal (necessariamente, apenas nas suas grandes linhas) de molde a exigir uma tradução e uma resposta política global, ou seja, que abale a orientação seguida pelo conjunto da sociedade e pelo Estado que se lhe cola. Não há uma incompatibilidade absoluta entre movimento social e acção política (como pretendeu um certo doutrinarismo anarquista oitocentista), como não há entre sociedade e Estado – sendo de resto cada vez mais íntima a sua interligação, entranhada e complexa a teia de continuidades entre ambos os domínios, distinguíveis para efeitos de análise mas absolutamente interconectados quanto à acção que os faz mover.

Neste caso, uma acção política fiel e intérprete dos desígnios de um movimento social que ambiciosamente procurasse uma mudança social profunda, teria que desligar-se da luta pela conquista e ocupação do poder político (isto é, da cabeça e dos mecanismos do Estado), para se preocupar fundamentalmente com a mudança profunda da cultura política instalada (mais lenta ou mais rápida), a qual, como bem conhecemos, é hoje quase totalmente virada para a preservação e cogestão do domínio (por parte das elites partidárias, económicas e culturais) sobre a massa das classes médias e populares. Dito sob forma de slogan: só participar do poder governamental na medida em que isso possa mudar a cultura política estabelecida! (O que significaria um esforço para recuperar a Política, pensada à maneira de Platão.)

Em meados do século passado, a partir na noção político-filosófica de “alienação”, certos sociólogos (v.g. Robert Blauner, Alienation and Freedom, 1964) tentaram transportar este conceito para a análise das atitudes dos trabalhadores industriais quando – efeito da extrema divisão do trabalho-em-cadeia ou da monotonia da tarefa de alimentar uma máquina especializada –, além do esgotamento físico, neles se produz uma espécie de apatia provocada pela situação de uma cumulativa ausência de poder (powerlessness), ausência de sentido (meaninglesseness), isolamento (isolation) e  algum tipo de “despersonalização” (self-estrangement). Será esta uma descrição tipológica parecida com o que se passa neste século XXI “no interior” destes movimentos de sociedade a que acima aludimos? Isto é, sujeitos de acção – incluindo as manipulações informativas, a agressividade psicológica, a ocupação do espaço público e, eventualmente, a violência física – mas em grande medida alienados de objectivos de transformação social?

Podemos também interrogar-nos sobre se as torrentes de refugiados e emigrantes que vemos agora acorrerem às portas da Europa e dos Estados Unidos podem ser entendidas como mais um tipo de movimentos sociais. Sendo certo que as instituições Onusianas já tipificaram há muito o estatuto jurídico de uns e de outros, também é verdade que, embora esses fluxos integrem verdadeiros refugiados de guerra e verdadeiros desesperados com as situações de miséria material existentes nos seus países, é suspeitosa a simultaneidade e continuidade de tais fluxos, certamente acossados pela necessidade mas também provavelmente incitados, apoiados e orientados por “forças ocultas” (entre as quais se contam gangs de traficantes que lhes extorquem tudo o que podem) e que os excitam para que exijam dos países ricos o que não reivindicam dos seus próprios governantes (tantas vezes corruptos). Nestas condições, tratar-se-á antes de correntes migratórias pressionadas pela urgência e a aflição, que urge socorrer, atender e tratar no plano humanitário, mas às quais não podemos atribuir qualquer intencionalidade positiva de acção para uma mudança das condições sociais. É legítima e genuína a procura de uma vida melhor para quem padece de inúmeras carências, mas isso não deve ser confundido com uma reivindicação de progresso social.

Os movimentos sociais de hoje são mais diversos, provisórios e inorgânicos, também atravessados por clivagens e contradições que lhes dificultam a expressão e o entendimento vistos do exterior. A comunicabilidade permitida pelas tecnologias actuais estimula, em muito, a rápida circulação de emoções e opiniões simples, seja em termos de protesto ou indignação, seja em (talvez menos eficazes) canalizações de apoios ou contributos para causas solidárias para com um valor ou bem público. Resta ver (verão os nossos filhos) se isto não virá a ser usado para subverter e virar do avesso os princípios de liberdade e de justiça pelos quais, desde há mais de dois séculos, tantos têm lutado e não poucos se sacrificaram.

JF / Janeiro 2019

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