Agora: Técnicas e estéticas audiovisuais

A maior parte da informação e do entretenimento chega-nos, nas sociedades actuais, através de mass media e de outros dispositivos análogos. Em parte,  estão agora a ser concorrenciados pelas social networks, mas não vão ser por elas substituídos. Aliás, estão a responder-lhes de modo agressivo, talvez por sentirem a ameaça.

A televisão, a rádio e o cinema (com as variantes artísticas das “séries”, das telenovelas e outros “enlatados”, com os “directos” de certos espectáculos e os debates-de-comentadores que tudo isto suscita) são ainda os grandes condicionadores da opinião pública – relegando cada vez mais os jornais impressos e as revistas-magazine para leituras de fim-de-semana (onde aliás se podem encontrar óptimos textos). Os “programas” de índole histórica, científica ou cultural (no modo  tradicionalmente considerado) são cada vez mais raros, apreciados apenas por uma escassa elite mais educada e desprezados pela maioria. E, sob os seus escombros, floresce agora um ror de actividades fervilhantes transmutando o labéu de “cultura” para todo o género de criações – de surpreendentes formas de arquitectura e pintura, às “instalações”, à escrita de livros “ligeiros”, ao próprio teatro e, sobretudo, na música –, desde que satisfaçam três condições de base: serem chocantes ou perturbadoras de equilíbrios socio-psicológicos longamente consolidados; que os seus autores se disponham a todas as servidões para aceder ao “estrelato”; e que apareçam investidores, promotores e expectativas de grandes números e bons lucros financeiros no final.

Ora, os referidos “condicionadores de massas” – televisão, rádio e cinema – funcionam sob dois registos: um, decorrente de uma adequação bem consolidada entre as suas características específicas de emissores (radiodifusão sonora e de imagem-e-som, e projecção sobre ecrã ou “plasma”) e a habituação dos públicos (horários, disposição psicológica, intencionalidade, etc.), ou seja, de um modo relativamente estável, compaginado com a regularidade da vida social quotidiana; o outro registo, sobrepondo-se àquele, é o das modas (que duram uma breve conjuntura), sejam elas temáticas ou jogando com a dinâmica própria dos diferentes tipos de produções.

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Na realidade, as três funções oficialmente atribuídas à rádio-e-televisão – informar, educar e entreter – estão hoje largamente subvertidas, não só pela concorrência de outras “plataformas”, mas sobretudo pelo imperativo das modas. Aqui, na conjuntura actual, prevalecem como temas: o espectáculo desportivo e os intermináveis debates que proporcionam (alimentando as paixões identitárias); os concursos descobridores de “talentos”, sobretudo orientados para a interpretação vocal-musical (sempre a pagar royalties ao estrangeiro); os cuidados com o corpo (sensualmente apelativos, um pouco acima da procura da “eterna juventude”); a alimentação e a cozinha (actualmente, verdadeira “febre”… “pró”-espectáculo); os automóveis (sempre o fascínio da velocidade); e as viagens turísticas – a bem das respectivas indústrias. E no cinema e nas “séries” (em sala, na pantalha da televisão ou em outros “suportes”) agigantam-se os hollywoodescos filmes com tiros, sangue e explosões, “bolas vermelhas” e outras violências (algumas delas mais “europeias”, “nórdicas” ou “eslavas”, a puxar para o psiquismo).

No segundo registo – o do dinamismo imprimido à sequência das imagens e/ou dos sons – prima actualmente a técnica da aceleração do ritmo de surgimento dos flashes e a sua rápida substituição pelos seguintes: uma técnica que rapidamente se transformou em estética e depressa se vem disseminando por vários campos. Até na mais pausada e burocrática Antena 1 da rádio oficial, após a reforma de um dos speaker mais presentes e emblemáticos que existiam na estação, em vez da audição de canções ligeiras mais ou menos bem escolhidas, enfiam-nos agora no microfones montagens de micro-trechos de várias músicas, quase empasteladas umas nas outras, técnica idêntica à utilizada cada vez mais em televisão para representar a transcorrência do tempo natural em apenas meia-dúzia de segundos (com as nuvens e as estações correndo a galope, ou as pessoas a trotar como um Charlot acelerado), provavelmente para ganhar mais algum tempo para as mensagens publicitárias que suportam financeiramente o negócio, mas que também devem fazer as delícias no círculo fechado destes “artistas”.

Mas há uma segunda técnica, também muito disseminada: a técnica da repetição, da “martelagem” (igualmente com alguma influência de ordem estética), consistindo na exibição, dentro do “bloco” de imagens/sons (em geral com uma duração de 3 a 5 minutos), da mesma mensagem “ipsis verbis” duas ou três vezes com pequenos intervalos entre si, tal como a publicidade comercial nos tem vindo a sujeitar desde há alguns anos e que agora se replica em outros campos. Atente-se nas letras das canções actuais (em inglês ou português) e repare-se como em tantas delas a mesma frase, o mesmo verso, se repete quatro, cinco ou seis vezes, não na função de refrão, mas como elemento constitutivo, por vezes nuclear, do texto cantado. Há dias, era na própria rádio pública que, numa longa reportagem sobre ciência e economia, se repetiam passagens da fala gravada. E nos espaços de informação televisiva, quantas vezes não nos repetem eles as mesmas imagens, à saciedade, sempre que vão buscar um tema escaldante sobre o qual apenas acrescentam um pequeno pormenor revelado na última hora (numa perfeita “picagem de crâneo”, como diziam em tempo os rapazes)

Tudo isto tem um resultado (ou um propósito) claro: impedir-nos de pensar.

E tudo isto é, bem entendido, copiado do que já existe no estrangeiro, já que nisso – na reprodução de modas alheias – os nossos profissionais não se perdem em demoras. Mas devia antes ser matéria de exame crítico pelos investigadores/docentes do ensino superior focados sobre tais matérias, para melhor poderem colaborar na formação desses profissionais da produção de “conteúdos” e da realização de “espectáculos”.

O mesmo fenómeno se passa em “eventos” como foi agora o Web Summit em Lisboa. Passaram por lá nomes conhecidos da “economia digital” que, em “ténis”, blue jeans e t-shirts, expuseram ou debateram as suas ideias sem papel escrito e em não mais de vinte minutos, num tablado sempre a piscar em luzes coloridas e onde só faltaram as gerbes de papelinhos dourados das apoteoses dos show offs musicais ou desportivos; muitos outros empreendedores de startups apresentaram em três minutos os seus projectos; e, fora dos focos dos projectores, muitos deles discutiram com potenciais financiadores os contornos de uma eventual associação de interesses (pessoais, financeiros, técnicos, profissionais, empresariais) – adivinha-se que sem quaisquer considerações de ordem filosófica, ética, política, ambiental ou sequer linguística: bastam-lhes números.

Disse-se que tinham sido 70 mil os participantes e acreditamos que sim. Mas, para além do encontro de pessoas (na língua-veículo que é hoje o inglês) e de alguns contratos apalavrados, o que vai ficar em termos económicos mais estruturais deste novo tipo de “feiras”, um pouco a meio-caminho entre as grandes cimeiras de líderes políticos mundiais e as mobilizações militantes internacionais que muitas vezes contestam aquelas ou se propõem “reorganizar o mundo”, como foram os Fóruns Sociais Mundiais realizados no Brasil ao tempo do Lula? Apenas o afluxo turístico gerado para a cidade de Lisboa? Responder-nos-ão que tal visa “colocar no mapa” a nossa cidade-capital. Mas o que vale este encontro de “tecnologias light” ao lado das grandes “Expos” e outros “Summits” realizados na Alemanha, França, Suíça, América, Japão, China ou mesmo na Índia? Ou será apenas para “efeito interno”, para os governantes de turno nos venderam a “excelência” das suas políticas económicas por via da ocupação dos principais espaços horários nos mass media nacionais? (Pareceu-me que o actual presidente do Instituto Superior Técnico exprimiu as suas dúvidas sobre isto.)

Outro ponto. A minimalização da linguagem que é dominante na opinião publicada encontra um terreno óbvio de exercício, por exemplo, nos noticiários radiofónicos sobre as cotações bolsistas: é espantoso como desde há tantos anos se escutam várias vezes por dias reportagens das variações dos índices e valores bolsistas, sendo certo que os agentes a quem interessam estes dados estão longe de se satisfazer com as “décimas” que sobem ou descem de algumas das grandes empresas em bolsa ou com a tendência-na-hora dos índices! – isto, para além da quase “redução ao absurdo” das designações que se fazem de certas destas “cotadas” (“tecnológicas”, “eléctricas”, “exportadoras”, etc.) e das simplórias razões aduzidas para explicar tais variações.

Os agentes que realizam e animam estas emissões não estão ali por acaso, são profissionais que sabem o que fazem e foram formados para tal. Íamos escrever “formatados”, mas não seria correcto. Na realidade, desde as escolas superiores encarregadas de tal missão que, além das aprendizagens técnicas, estes jovens “comunicativos” são socializados em ambientes de pressão, urgência e concorrência, que lhes incutem uma atitude profissional que não irão perder ao longo da sua vida activa: captar e reter a atenção dos auditores/espectadores; inovar e surpreender, não apenas as audiências mas também os seus chefes hierárquicos ou futuros clientes; estimular os mais culturalmente dotados para aproveitarem cada “cinco minutos de antena” para exibirem os seus talentos comunicativos, fazendo então “literatura e representação expressiva” onde devia existir notícia ou reportagem, com os conhecidos itens de o quê, quem, onde, quando e como. E, nos mais canhestros, com aquela horrorosa pergunta “aberta” de microfone estendido: “Como é ser…?”

Deixemos por agora de lado as “Academias” que atribuem Prémios e organizam “Galas” para a sua entrega, sempre segundo um modelo americano rigorosamente repetido. Mas não há Sindicato (ou Ordem) ou Comissão de Carteira Profissional de Jornalistas (ou ainda Escolas de Jornalismo e os mais prestigiados profissionais em fim de carreira) que, se possível em conjunto, pressionem para melhorar este estado de coisas, ao serviço de uma boa comunicação social, útil e formadora para os cidadãos e a cidadania? E não haverá Associações Profissionais e Escolas de Artes Performativas que entendam os limites destas “espectacularidades” electrónicas e possam dialogar com os primeiros para impor algumas regras de “decência” a empresários-sem-escrúpulos e tecnocratas empedernidos que detêm em suas mãos uma parte destas decisões, apesar de muito lhes vir “de fora”?

JF / 18.Dez.2018

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