Em nome da sacrossanta competitividade nacional: Parem com os despejos!

Don Tapscott, considerado uma referência do marketing e da digitalização, veio a Lisboa dizer à «classe empresarial» que a cidade tem potencial para se transformar numa próxima Silicon Valey (Negócios, 30.Nov.2018). A avaliação não poderia ser melhor, vinda deste guru, convidado pelo jornal de Negócios e pela Omnicom.

Graças ao turismo, Lisboa foi finalmente aberta ao Tejo. Com o fim de décadas de clausura, o seu miolo histórico, transformado numa espécie de parque temático, uma Disneylândia (mas com substrato mais autêntico), tem vindo a atrair cada vez mais estrangeiros. São eles quem tem animado o negócio do imobiliário na ressaca da crise que arrastou a banca portuguesa para o fundo. Como consequência, de novas modalidade de negócio emergente através de plataformas Web, o preço das casas em Lisboa e no Porto tem vindo a subir extraordina-riamente e vai continuar a subir, apesar das dificuldades económicas agudas com que se debate a maioria da população portuguesa que ainda vive na capital. Como uma onda de choque, a alta de preços que se repercute imediatamente no arrendamento, infectou a periferia, tornando-se cada vez mais caro aos “indígenas” viver na Amadora, Odivelas, Gaia ou Matosinhos. A Standard & Poor’s (S&P) estima que os preços vão subir 9,5% este ano, muito acima dos ganhos salários, dos ganhos de produtividade da economia ou da oferta de crédito (agora mais apertada).  E estima que “nos próximos anos — em 2019, 2020 e 2021”, os preços das casas vão aumentar respectivamente, 7%, 6% e 5%” (Expresso, 9.09.2018). É, pois, a procura externa que está a empurrar os preços para cima.

Estas notícias não poderiam vir em melhor altura para a “nossa” classe empresarial e política, tão viciada em cimento quanto os americanos em petróleo. Abençoada Lei Cristas,  mulher visionária, que pôs finalmente a funcionar a lei do mercado. Todo o poder aos senhorios! Valeu na altura a esquerda que, através da misericordiosa Lei n º 30/2018, de 16 de Julho, quis suspender os despejos das  pessoas  com  idade  igual  ou  superior  a  65  anos,  ou com  grau  comprovado  de incapacidade igual ou superior a 60% e 15 anos de arrendamentos. Mais recentemente, por iniciativa do Bloco social-democrata (o tal de extrema esquerda!), o sabor do capitalismo luso ficou mais adocicado pois quis-se estender aquela protecção às pessoas com filhos a cargo e às pessoas com baixos e médios rendimentos “procedendo à suspensão temporária dos prazos de oposição à renovação e de denúncia pelos senhorios de contratos de arrendamento” (v. Diário da Assembleia, 3-10-2018).

Lisboa, cidade envelhecida. Em 1981, tinha mais de 800 mil habitantes. Em em 20 anos perdeu perto de 250 mil habitantes e continuou a perder população durante as décadas perdidas do crescimento induzido pelo apetite pelo betão. Em 2008, a população urbana não chegava aos 500 mil e continuou a diminuir. Esta política demográfica pode prosseguir porque, para o município da capital, o rendimento gerado pelos residentes é desprezível. Ao contrário do que sucede a quase todos os outros.

Finalmente, o virar de página. Agora, o futuro da capital parece risonho… para quem lá consegue morar. Certo? Não, errado! Depois de ter posto a plateia de empresários a sonhar e a salivar, veio o balde de água fria. Logo depois de anunciar este enorme potencial da cidade candidata a Califórnia da Europa (um sonho com 100 anos, constatamos nós, agora recauchutado via digitalização), diz-nos que o grande obstáculo, intransponível, é a população idosa! Lisboa está velha e precisa de jovens e de crianças nas ruas, enfim, precisa dos milhares que emigraram por razões económicas, dos que estavam fartos dos empregos mal pagos, dos call centres ou que desesperavam por um futuro. Don Tapscott é um desmancha-prazeres!

Que conclusões podermos tirar daqui? Que os liberais radicais têm razões em dizer que a intervenção dos governos distorce as leis dos mercados e no fim todos ganhamos alguma coisa? Que, ó gente desalmada, não se deveria ter protegido a população idosa (com 65 anos ou mais)? Nada disso. Mas de quem é a culpa, afinal, desta situação triste a que chegamos?  A direita e o centro têm feito o seu papel e deles não se espera outra coisa. Obviamente que a culpa é da nossa “extrema esquerda” parlamentar.  Se ela tivesse feito o seu trabalho como deveria, agora teríamos a cidade cheia de criancinhas e de jovens, novas escolas a serem construídas, etc. como na cidade do México ou em São Paulo. A direita teria refilado com medidas de protecção aos jovens mas no fim iria agradecer!

A direita portuguesa precisa de uma esquerda mais eficiente! Se fossemos uma Noruega ou uma Suécia… mas esses tiveram décadas de políticas sociais democratas de facto e ainda não lhes passou de todo a mania. A esquerda tem de lidar com a direita como os pais de antigamente que diziam aos filhos: agora custa-se mas no fim vais-me agradecer!

Numa altura em que abundam as modestas propostas, não resistimos a esta: uma boa política nacional em defesa da nossa prosperidade deve já começar por financiar condignamente os activistas do “STOP DESPEJOS” tal como os americanos fazem com as suas ONG. Depois haverá que povoar a cidade com beautifull people e outra mais típica, abrindo um gabinete de recrutamento na vereação apropriada da câmara de Lisboa. A esses seria dado um RBI a «título experimental» para não ofender a nossa direita que adora a expressão “vai trabalhar malandro!”.  Já lá vai o tempo em que a televisão chamava os jovens a debate sobre matérias fundamentais porque eram jovens, ignorando outros que mais conheceriam das matérias. Agora o casal jovem em Lisboa deve ser tratado como os animais em vias de extinção em parques naturais. São eles o ingrediente essencial do negócio!

Valentim

30-11-2018

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