Agora: Fake news, propaganda e demagogia

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa de Almeida Costa e Sampaio e Melo (7ª edição, s/d), o demagogo seria um «indivíduo que excita as paixões do povo, mostrando-se defensor dos seus interesses, mas tendo em vista a prossecução dos seus próprios pontos de vista» (p. 534); no Petit Larousse Illustré de 1916 diz-se que é «celui qui affecte de soutenir les intérêts du peuple pour gagner sa faveur» (p. 268); e no Advanced Learner’s Dictionnary of Current English de Oxford, 1963, define-se como um «political leader who tries, by speeches apealing to the feelings instead of to reason, to stir up the people» (p. 261). Portanto, sem dúvida, a demagogia e o populismo são tão antigos quanto, pelo menos, as nossas sociedades urbanas europeias, e os seus intérpretes eram já bem caracterizados pelos mais sábios dos seus contemporâneos na Agora de Atenas ou às portas do Senado de Roma.

O que muda – além dos contextos e da cultura popular – são essencialmente os meios técnicos utilizados. Nesse longínquo Mediterrâneo, eram a voz, a retórica e o gesto expressivo do orador, na sua interacção directa com os ouvidos e a disposição emocional do auditório. Os condottieri renascentistas italianos aperfeiçoaram este método de governo (vide Maquiavel) desenvolvendo-lhe a perfídia, o uso do veneno, da tortura, bem como o recurso à “prestação de serviços por terceiros”, a dinheiro, para as emboscadas e assassínios cirúrgicos.

O panfleto e o jornal tiveram a sua época de glória, que foi também a da intoxicação dos desprevenidos: não necessariamente através da difusão de mentiras sobre os factos, mas mais subtilmente pela maneira como eram estes eram relatados. Contudo, na oportunidade, também apelaram à revolta e ao motim, ou ao linchamento público. No entanto, em geral, a reputação de um periódico e o estilo da suas “caixas”-de-primeira-página eram suficientes para esclarecer ao que vinha: só comprava quem o procurava.

Mussolini e Hitler “alteraram a escala” e aproveitaram a fundo as novas tecnologias então disponíveis: a rádio levou a vibração dos seus discursos, de forma audível, até à última fila de gigantescos comícios de rua e, juntamente com as imagens cinematográficas, ao país inteiro. O squadrismo di strada e o seu gosto pela violência física atingiu então um elevado grau de aplicação, até porque tinha pela frente os piquetes-de-greve operários ou, no seguimento, as brigadas-de-choque da agit-prop bolchevista. E, quando conveio, o assassinato político (Matteoti e tantos outros) não deixou de ser usado. Sabemos da dinâmica fatal destes regimes: encarceramentos em massa, deportações, tribunais políticos e mesmo genocídios – além das guerras. Julgámos na segunda metade do último século que essa página negra tinha sido ultrapassada, mas tememos agora que não completamente.

Com a TV, os media comunicativos tornaram-se “de massas”, maciços, e há já mais de meio-século que eles fazem parte do quotidiano das pessoas comuns, tendo nós, a pouco e pouco, aprendido a lidar com a sua martelagem massacrante, semelhante à da publicidade comercial, mas com poucos ainda a saberem defender-se disso. As crianças, os menos escolarmente cultivados, os mais rústicos, são os seus alvos apetecidos. Os políticos da democracia trabalham hoje quase todos nessa onda, e até certos juízes (com a inacreditável prática brasileira de deliberações de colectivos judiciais serem tomadas em público, com aplausos e apupos à mistura). As populações consomem, compram em boa dose o que assim lhes é servido: automóveis, modas, promessas políticas, paisagens de sonho, erotismo, emoções e outro tipo de mensagens não-escritas, incluindo as políticas. Por isso, os desgraçados do “3º mundo” querem desembarcar no Ocidente, os fanáticos de qualquer causa aperfeiçoam as suas intervenções mediáticas, e os investidores não faltam para financiar grandes espectáculos desportivos ou musicais.

people walking near crossroad beside building

Photo by Philip Danso on Pexels.com

Mas, de há vinte anos a esta parte que tudo mudou de novo na comunicação social, por força da Internet e das “redes sociais”, afinal um novo “jornalismo” que não precisa de jornalistas, onde um rumor se espalha em segundos pelo mundo inteiro, o relato é substituído pela imagem e quando muito a legenda; e o disparate, a falsidade e o insulto são livres e apreciados, contribuindo assim para um triste e perigoso declive civilizacional. Mas onde também manobram habilmente profissionais altamente qualificados, a começar pelos gigantes empresariais que as gerem, obtêm lucros astronómicos e vendem as suas bases-de-dados (nossos) a quem lhes pague, e a acabar nos piratas e outros “serviços secretos” que agora travam guerras políticas, informativas e porventura amanhã (de dentro dos seus bunkers) as propriamente ditas, com fogo e sangue, embora limitadas.

O uso da violência continua a ser um problema: defensiva? legítima? proporcionada? não-física mas psicológica? doméstica? Os contributos da ciência vieram aqui imiscuir-se num terreno que era anteriormente o das religiões e da moral, das instituições e da letra jurídica (ou de quem a escreve): esclareceram alguns de nós, mas talvez tenham confundido e baralhado as ideias de muitos mais, na forma “esquemática e formatada” como foram sendo divulgados. Isto só facilita a vida aos agentes especializados na manipulação informativa, seja ela intencional e a mando de quem possa ganhar com isso (poder ou riqueza), seja no âmbito de uma suposta contra-cultura vanguardista ou por efeito de um exacerbado nihilismo. E deixa os indivíduos mais frágeis e desarmados perante estes poderes cuja configuração lhes escapa, e meio-embebedados num consumismo material de pacotilha e em evasionismos pífios cujas ressacas lhes serão sempre dolorosas.

Actualmente, seria interessante que um antecipador-do-futuro como George Orwell fosse capaz de, literariamente, nos descrever estas derivas. De novo e de maneira mais clara, é o povo que está a cavar a sua própria sepultura? Ou é o meio que tem ao seu alcance para significar a sua rejeição por todos os vendedores-de-felicidade que o têm entretido desde há muito?

Ainda por cima, com as detestáveis tristes-figuras que agora presidem a vários grandes países do mundo, é a oportunidade de ouro para as auto-proclamadas “forças-de-progresso” democráticas que ajudaram a orientar o mundo ocidental nas últimas décadas branquearem o que a sua actuação também teve de mais contestável: sobretudo, as “causas fracturantes”, a corrupção e o negocismo com o “grande capital”.

Significará isto o fim dos sonhos da “democracia directa”?

Mas sobre os aspectos técnicos desta ofensiva comunicacional (e das estéticas que lhe estão associadas), há mais que se lhe diga. Em breve aí voltaremos.

 

JF / 30.Nov.2018

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