Há um século: Outono de 1918, momento de alívio mas de múltiplas interrogações

Há um século, de novo, precipitavam-se os acontecimentos na Europa, nas chancelarias, nos estados-maiores e sobretudo nas ruas e nas unidades militares dos países beligerantes. Em 1917, a Alemanha havia facilitado a viagem do líder bolchevique para Petrograd (conforme a interessante reconstituição feita por Catherine Merridale em Lénine no Comboio) com o objectivo de uma paz separada, que alcançou. Mas, o «colapso das potências centrais» (como lhe chamou o historiador Martin Gilbert) começou em finais do Verão de 1918 com abandonos dos postos e sinais de revolta por parte de soldados alemães, nas frentes ou de licença na retaguarda. Os governos trocavam mensagens sobre as condições para o fim das hostilidades mas, entretanto, milhares de homens morriam nas trincheiras e nos hospitais de campanha, tanto devido a ferimentos como por gripe e pneumonia. Em finais de Outubro, o alto-comando alemão demitiu-se, o governo do príncipe Max (de Bade) tentava negociar com os aliados e o próprio Kaiser percebia que chegava o fim: a Bélgica estava inteiramente libertada e a frente alemã recuava todos os dias; nos Alpes austro-italianos, os aliados ocidentais bombardeavam pesadamente as posições inimigas; na Síria os britânicos forçavam o exército turco à retirada em Alepo; e no Atlântico os submarinos alemães já quase não incomodavam a navegação aliada. Foi então que, perante a ordem desesperada do almirante Scheer para que a esquadra de alto-mar saísse para tentar uma batalha naval decisiva, os marinheiros alemães se amotinaram, apagando as caldeiras e recusando-se a novas acções. Terão sido detidos talvez mil homens, deixando a frota imobilizada.

Mas a decomposição das unidades militares transferiu-se em poucos dias para as ruas, com laivos de caos e insurreição civil: o primeiro-ministro húngaro é assassinado a 31 de Outubro por extremistas de esquerda,  enquanto o governo austríaco anunciava um cessar-fogo; em Kiel, a 3 de Novembro, milhares de marinheiros e operários dos arsenais vieram para as ruas com bandeiras vermelhas; e nos dois dias seguintes os portos de Lubek, Travemunde, Hamburgo, Bremen, Cuxhaven e Wilhelmshaven aderem à revolução, bem como milhares de soldados; Colónia, Munique e Berlim são atingidas pelo movimento insurrecional que, mesmo sem líderes explícitos, exige a paz imediata.

A 9 de Novembro o governo imperial resigna, o Kaiser parte para a Holanda (país neutral) e a chancelaria fica entregue aos líderes sociais-democratas (que tinham estado na “união sagrada”), com Friederich Ebert à cabeça. A 11 assina-se o armistício na floresta de Compiègne. As massas, as mulheres, os soldados irrompem em todas as capitais em manifestações de júbilo e inebriante euforia pelo fim da carnificina.

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Um tal clima psicológico não podia deixar de reflectir-se em Portugal onde, de resto, se assistia já ao desmoronar do sidonismo, com o afastamento de Machado Santos e Carlos da Maia, e outros abandonos. De facto, depois das eleições e alterações legislativas e constitucionais de Abril, as dificuldades políticas internas foram-se agravando com as baixas (cerca de 400 mortos) e os mais de 6 mil militares feitos prisioneiros pelos alemães em La Lys (Afonso & Gomes, 2003: 442), o depauperamento das tropas na campanha do norte de Moçambique e a morte de Carvalho Araújo em combate no Atlântico. Isto, além do prosseguimento da carestia de vida no país. Segundo historiadores económicos, entre o Verão de 1914 e o Outono de 1918 o índice do custo de vida foi multiplicado por mais de três; e a reforma do Banco de Portugal decretada a 28 de Abril para facilitar a concessão de crédito ao Estado para as despesas de guerra realimentou o processo inflacionista e acabou por desencadear uma crise bancária que se arrastou durante três anos, com sucessivas falências e criação de novos bancos (Lains  & Silva, III, 2005: 228-231).

Depois, como muitas vezes acontece, surgem os incidentes. A 16 de Outubro de 1918 teve lugar a “leva da morte”, quando uma coluna escoltando presos no Chiado se envolve num espingardeio com supostos libertadores dos detidos, no qual morreu o visconde da Ribeira Brava, entre outros. Juntamente com a “pneumónica”, o anúncio do fim da guerra a 11 de Novembro frustrou grande parte do impacto previsto com a greve geral decidida pela União Operária Nacional para o dia 18 mas, mesmo assim, ela paralisou certas actividades e gerou confrontos físicos com as autoridades. Os rurais instalados na “Comuna da Luz”, em Odemira, passaram à ocupação de terras vizinhas, sendo então presos (e depois deportados) vários destes trabalhadores. O próprio Gonçalves Correia não escapou aos calabouços. Mas foi um dos republicanos “democráticos” da região que interviera em tais acontecimentos que protagonizou a cena do assassinato do presidente Sidónio Pais na estação ferroviária do Rossio, na capital, a 14 de Dezembro, lançando o país numa nova convulsão que duraria meses, factos-de-armas e um mais apressado encaminhamento para o fim da República.

Na realidade, os grandes latifundiários do Alentejo demonstravam ter então mais poder do que a aristocracia agrária russa, que estava agora em retirada, salvando o que podia para ocidente e financiando os exércitos “brancos” de alguns generais inconformados com os bolcheviques, forças que também contaram inicialmente com a ajuda de potências ocidentais (Inglaterra, França e Estados Unidos), receosas do contágio do que por ali se passava.

A guerra civil no leste europeu (misturada com certas pulsões nacionais, de regiões há muito submetidas mas com identidade cultural própria: Silésia, Bessarábia, Ucrânia, Finlândia, Báltico, etc.) foi de tremenda violência e arrastou-se até finais de 1921. Mas nunca ninguém “vindo de fora” venceu a Rússia, no final. A profundidade estratégica do seu território é o motivo geográfico essencial. Mas a vontade e combatividade do seu povo foram sempre o elemento humano mais decisivo (contra Napoleão e na II Guerra Mundial, depois de 1941), aliás ambivalente e contrastante, como se tem visto em várias diferentes circunstâncias: longa submissão a poderes despóticos; disponibilidade para a prática de violências sem nome; sublimação em extraordinárias realizações estéticas. (Em suma: um povo, uma cultura de excessos.) No caso em apreço, foram os comunistas de Lénine e Trotsky que, com visão e agilidade político-militar, conseguiram preservar o essencial do imenso território e, sobretudo, o exercício do seu poder ditatorial “em nome do povo”. Curiosamente, para o melhor ou para o pior, foi o anarquista ucraniano Makhno que, ao aceder aliar-se ao Exército Vermelho contra os “brancos” de Denikin quando estas tropas contra-revolucionárias se encontravam em vantagem ofensiva sobre Petrograd e Moscovo, fez talvez pender a guerra para o lado dos “vermelhos” e assegurou a sobrevivência do seu regime. De pouco lhe valeu, salvo a amargura pessoal de tais recordações e a lição que os seus correligionários guardaram para o futuro.

Em qualquer caso, entre 1919 e 1921 jogou-se o destino da Europa e do mundo industrial para quase todo o resto do século XX.

João Freire / Setembro.2018

 

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