Agora: Alterações climáticas e protecção civil

A incêndios catastróficos, tempestades, terramotos e maremotos, colisões cósmicas, epidemias, fenómenos climáticos extremos, gigantescos acidentes – é impossível opor-se-lhes frontalmente! Porém, há outras coisas a fazer: 1º-Prevenir riscos (construções, maquinaria, erosões, ocupação do solo e povoamento, educação das populações, etc.); 2º-Preparar e ter prontos socorros de emergência; 3º-Face aos factos inesperados, tentar limitar os prejuízos e socorrer os atingidos; 4º-Logo após a tragédia, avaliar danos e decidir planos de reacção; 5º-Estudar os acontecimentos e adoptar novas medidas de prevenção de riscos. Todos – pessoas, empresas e instituições – têm obrigação de fazer isto; mas as entidades públicas ainda mais.

Felizmente, aqueles acontecimentos são raros, mas vivemos talvez mais conscientes e assustados do que dantes pela possibilidade da sua ocorrência: só não sabemos quando, onde e com que intensidade. Mas, em grau mais pequeno, estes factos assolam-nos regularmente, alguns todos os dias: desastres rodoviários, explosões acidentais, quedas de aeronaves, naufrágios, surtos gripais, etc. (À parte, deixemos os conflitos humanos e sociais que também causam numerosas vítimas, já não falando das situações de guerra aberta, porque tudo isso exigiria outro enquadramento de compreensão e actuação.) Mas, pela persistência das suas manifestações, as alterações climáticas parecem ser (pelo menos em parte) mais uma reacção “vingativa” da Natureza perante certos “desmandos” da acção humana (como, sem qualquer acinte acusatório ou invocação divina, se pode interpretar a proliferação da Sida).

Em 2017 Portugal viveu os dramas de terríveis fogos florestais, que este ano foram afligir os causticados gregos, os surpreendidos suecos e os já habituados australianos e habitantes da Califórnia rural, embora não deixasse de acontecer (até agora) um grave incêndio como o de Monchique para nos relembrar as nossas conhecidas pechas e insuficiências. Apesar de todas as dúvidas, críticas, (decerto) erros e hesitações, parece que o impacto emocional do ano passado levou a uma melhor atitude de auto-protecção dos residentes nessas zonas de risco e das autoridades nacionais na preparação para acções de combate mais eficazes – mas quase nada em medidas para o longo prazo relativas à floresta, à propriedade rústica e ao povoamento. Em todo o caso, ao menos isso. E também parece provada a vantagem do aproveitamento dos equipamentos e saberes militares para lutar contra este “inimigo”, desde que se cuide especialmente da cooperação entre todos os meios – bombeiros voluntários e profissionais, estruturas da protecção civil, GNR, socorros de saúde, militares de “duplo uso”, etc. – e que os próprios particulares se organizem localmente para prevenirem e responderem da melhor maneira a estas ameaças.

De facto, se as necessidades da segurança externa não desapareceram totalmente (antes mudaram de natureza, em certos aspectos), as ameaças de guerras provocadas por vizinhos ou invasores deslocaram-se visivelmente, no fundamental passando a sua prevenção para um quadro de alianças internacionais de países com valores referenciais comuns (como podem ser a Europa, o “Ocidente”, o norte-atlantismo, a lusofonia, etc., e no limite a própria ONU), para as quais cada um deve contribuir com a sua quota-parte, e não mais confiando exclusivamente tal missão às forças armadas nacionais, como aconteceu nos últimos dois ou três séculos.

Em sentido inverso, para fazer face às novas ameaças que pesam sobre as populações residentes e o seu particular modo de vida, parece que se necessita muito mais do que os prestimosos bombeiros voluntários ou os tradicionais polícias-de-giro. A Protecção Civil está-se tornando um corpo profissional indispensável, desde que não acrescente mais rivalidades corporativas com as outras entidades. Numa época em que as liberdades individuais são levadas ao extremo (tanto pela economia como pela cultura e pelas possibilidades informativas-comunicativas), os riscos aumentam em parecida proporção. Daí a necessidade de novos conceitos para a operacionalização das forças de segurança e de investigação criminal, para as instituições e procedimentos de saúde pública, para o controlo do território e a garantia de uma pacífica convivência urbana.

nature red forest leaves
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Mas não há dúvida de que as “alterações climáticas”, por um lado, e o ordenamento territorial do país contam muito: aqui, com uma melhor e mais prudente especialização produtiva das áreas rurais, agrícolas, florestais, pastoris, de lazer, reservas protegidas e acabando com os terrenos ao abandono; com um povoamento mais racional e boas intercomunicações entre lugares isolados; com espécies botânicas e pecuárias adaptadas ao terreno e ao clima, embora sem perder de vista o seu valor económico; e uma educação e informação (pública e cultural) mais “amigas do ambiente”. Sobre o primeiro factor, a resposta tem de ser internacional, contando com um bom apoio dos media, uma acção adequada dos movimentos sociais “ambientalistas” e o peso de uma opinião pública desperta. Mas, no caso do segundo, é da responsabilidade nacional o melhor ou pior sucesso nesta “causa de civilização”, que não é para satisfação ou gáudio de umas supostas vanguardas político-culturais, mas verdadeiramente para o bem-estar da nossa descendência e, simultaneamente, dos mais carentes, aqui ou em qualquer outro lado.

Dois motivos suplementares de preocupação: – numa Europa pressionada por vários lados (o “Brexit”, os fluxos migratórios, o populismo nacionalista, a ameaça terrorista, a atitude de Moscovo, a fragilidade comercial-financeira internacional, a incógnita das próximas eleições para o Parlamento Europeu, etc.), o resultado eleitoral de 9 de Setembro na Suécia contabilizou quase 18% de votos no partido de extrema-direita SD, que defende posições xenófobas e nacionalistas, conquistando 63 dos 349 lugares no parlamento (terceiro mais votado) e uma posição que pode influenciar as futuras posições do seu governo; – e, num subcontinente em dificuldade (sobretudo a Venezuela, a Colômbia, o México, a Argentina…), no Brasil tudo parece ir de mal a pior, com a vida política numa das fases de mais baixa cotação que o país já conheceu (no balanceamento entre “corrupção, dissolução ou ditadura”), ao mesmo tempo que forças tremendistas investem no negacionismo da sua história, de que as acusações sobre a escravatura do passado e a rejeição da herança colonial portuguesa são dois dos argumentos mais utilizados. Servirá o lastimoso desaparecimento do Museu Nacional para também vir dar “um jeitinho” a estas “causas” ou, pelo contrário, poderá ajudar as forças mais sãs da sociedade brasileira a reagir contra a corrupção e a desfaçatez do pior partidarismo acoitado à sombra do seu regime democrático?

JF / 21.Set.2018

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