Agora: Progresso e retrocessos

Para muita gente bem-pensante (ou menos), o progresso é um facto natural e incontornável, traduzindo-se num aumento constante da riqueza disponível e numa sua distribuição mais generosa por populações até então pouco bafejadas pela sorte. “Progresso” foi palavra-de-ordem da burguesia capitalista do século XIX, afirmou-se como valor-âncora da filosofia positivista e ainda hoje figura no lema e na bandeira da república do Brasil. Mas, como geralmente acontece com os conceitos oficializados e elevados à categoria de políticas estatais, também foi em seu nome que se cometeram barbaridades: sobre povos primitivos ou de outras civilizações que lhe faziam obstáculo; destruindo particularismos culturais locais; desvalorizando ou expropriando os saberes do trabalho artesanal para que o industrialismo e a produção em grande série pudessem triunfar absolutamente; etc.

Mas, além dos tropeções e das travagens das tendências dominantes, também não é difícil encontrar na História momentos ou períodos de inversão e retrocesso como, de certa maneira, os que se sucederam à queda do império Romano ou os entusiásticos autoritarismos populistas que vieram após a hecatombe da I Guerra Mundial. É esse espectro que agora nos apoquenta, com estilos de liderança “à Trump”, a manipulação potencial mas intensa dos meios-de-comunicação-de-massas, uns fluxos descontrolados de populações migrantes em direcção aos países ricos (movimentos esses encarados ora como ameaças, ora como uma oportunidade de maior integração internacional) e instabilidade ou uso intencional das “armas” comerciais e financeiras nas disputas entre grandes poderes mundiais.

Acreditamos, porém, que a todas as partes (ou “partidos”) assiste uma certa dose de razão profunda, mas que nenhuma a tem completamente. E que, com o tempo, os equilíbrios tenderão a reencontrar-se: entre “esquerda” e “direita”; interesse público e mercado; laicismo e liberdade de crença; comunidade territorialmente enraizada e mobilidade ou cosmopolitismo; autonomia nacional e “globalização” ou mundialismo. Na condição de que não ocorra uma catástrofe e se consigam superar os termos dos actuais antagonismos ideológicos (apesar de pouco explícitados).

Louvemos o esforço do salvamento, magnífico, das crianças numa gruta da Tailândia que sensibilizou os telespectadores do mundo inteiro e mobilizou comprovadas competências e incontáveis impulsos de solidariedade! Mas sem esquecer as imprudências voluntárias, hoje muito encorajadas, que a sociedade é obrigada a “pagar” quando as coisas correm mal. Ocorre-nos a lembrança do dramático resgate de trinta e tal mineiros chilenos em Setembro-Outubro de 2010 que, esses sim, estavam ganhando o seu pão e quem sabe se enchendo os bolsos de patrões despreocupados da sua segurança.

O enquadramento normativo do trabalho tem vindo a sofrer a sofrer erosões nas últimas décadas, minando um “modelo social” (europeu) que se julgava adquirido e destinado a impor-se como regra universal (via OIT, e outros meios). Já não é assim e provavelmente não o voltará a ser, como também se foi o liberalismo político e de costumes, semi-aristocrático, que se afundou há um século entre massacres guerreiros e revoluções.

Uma maior profissionalização dos trabalhadores; a consideração de diversos padrões de referência remuneratória (empresarial, local, sectorial, nacional e mundial); e salários e condições-de-trabalho com mínimos “decentes” (quer dizer, dignos) – eis as directrizes que deveriam guiar gestores, sindicalistas, empregados e governantes na condução de uma economia sustentável, amiga do ambiente e tendencialmente igualizadora, em vez de agressora de alguns dos melhores valores humanos (íamos dizer, ainda…) presentes nas sociedades. E talvez que um “rendimento básico incondicional” possa vir a ajudar, desde que não desincentive o trabalho, não arraste uma burocracia impiedosa e não sacrifique as gerações vindouras. Ou será mais uma daquelas boas intenções que desembocam em gigantescos disparates?

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Lá por sermos velhos, não temos menos direito do que os outros a expressar a nossa opinião! Já basta:

-de agentes políticos convertidos em comentadores televisivos (ou o inverso) tentando seguir o trilho de alguém que mora agora em Belém, dos Marques Mendes aos Louçãs, dos Portas aos Vale de Almeida, dos Rui Tavares às Anas Drago, dos Marques Lopes aos Daniel Oliveira ou mesmo aos Pais Mamede…

-de recriminações (algumas rancorosas) e auto-flagelação pelos imperialismos passados – que tiveram páginas negras mas também efeitos equalizadores para a civilização de abundância material que todos hoje acham sua ou ambicionam –, trazendo para a questiúncula política temas históricos já devidamente superados;

-de enfartamento do “futebolês”: visto, revisto, comentado e sobretudo “picardizado” até à exaustão (Socorro! Venham férias!)

-uma fixação patética sobre os animais (de companhia e mesmo outros), agora sujeitos de direitos codificados, não para serem protegidos, respeitados ou controlados, mas para maior gozo pessoal dos seus donos (que, de resto, encaram por vezes os seus próprios filhos de idêntica forma);

-filmes hollywoodescos de fantástica violência e de efeitos perturbantes para o sossego das criancinhas e das (nossas) pobres almas;

-uma publicidade avassaladora, de automóveis, destinos turísticos, comida e remédios para tornear o corpo;

-tudo isto alinhado pela propaganda aberta, implícita ou astuciosamente induzida das “causas fracturantes”, dos “novos direitos e do “politicamente correcto”, à frente dos quais se evidencia tudo o que as promessas do prazer e da sexualidade possam conter.

Chega!

JF / 29.Jul.2018

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