“O aparecimento dos partidos comunistas enganou muito boa gente”: o iconoclasmo acrata e a crise da consciência revolucionária em Portugal nos anos Vinte

A revolução russa de Novembro de 1917 foi vista pelos contemporâneos como sendo o resultado directo do conflito mundial[1]. Contrariamente ao que todos esperavam, a guerra total prolongou-se por mais de quatro anos, pondo à prova a resiliência das sociedades europeias e as estruturas de poder dos Estados. Da desagregação dos velhos impérios na Europa central nasceram novas unidades políticas republicanas patrocinadas pelas potências vencedoras e pelas burguesias nacionais. Entre os revolucionários sociais, a expectativa de um colapso generalizado da civilização burguesa deu lugar à frustração quando se percebeu que as sociedades capitalistas avançadas tinham sido capazes de reagir com sucesso às múltiplas ameaças internas e externas. Assim, ao contrário do que Marx defendera na sua teoria de História, sacralizada pelos partidos socialistas e sociais-democratas, as ameaças revolucionárias à ordem burguesa não emergiam nos países de maior desenvolvimento industrial, técnico e científico mas encontravam-se nas periferias onde uma estabilidade precária fora alcançada no quinquénio subsequente ao fim da guerra, entre 1918-1922 [2].

O processo revolucionário que conduziu à dissolução do Império czarista, que tornou inviável a república burguesa parlamentar saída revolução russa de Fevereiro e, que, finalmente, levou à construção do Estado soviético decorre e estrutura-se ao longo desse período conturbado, marcado pela violência extrema gerada pelas guerras imperialistas e, depois, pela hostilidade aberta das elites nacionais e das grandes potências à revolução social que triunfa na Rússia. São elas que patrocinam e cooperam com as forças reaccionárias que saíram vitoriosas por toda a Europa, embora derrotadas na guerra civil russa (1917-1922). Em 1919, com o malogro da insurreição espartaquista na Alemanha (Janeiro de 1919), das repúblicas soviéticas na Hungria e Eslovénia, com a guerra civil na Finlândia e, no ano seguinte, com o desenlace fascista na Itália, na sequência do Bienio Rosso (1919-1920), enfim, com a incoerência do Triénio Bolchevista em Espanha (1919-1921), o Estado soviético russo teve de lidar militarmente com as crescentes dificuldades resultantes do seu isolamento internacional e com insurreições de vário tipo nos territórios do antigo Império, algumas delas bem‑su­cedidas como sucedeu na Polónia (1919-1921).

A criação da U.R.S.S. em 1922 sob direcção e controlo do Partido Comunista que, desde cedo, controlou os sovietes e impôs um regime de “ditadura do proletariado”, deve ser vista num quadro analítico mais geral, considerando a complexa estabilização da nova “ordem internacional” entre as duas guerras mundiais. Esta ordem foi responsável simultaneamente pelo isolamento do novo Estado e pela sua emergência como Estado-líder revolucionário. Nesse processo, os bolcheviques criaram o Comintern – a Internacional Comunista ou III Internacional (1919-1943) -, e desenvolveram uma nova ideologia de combate e mobilização social: o marxismo-leninismo.

A fome de 1921-1922 que atingiu de forma aguda as regiões cerealíferas do Volga e o sul da Ucrânia, como resultado directo das secas, das perturbações da guerra civil e das exacções violentíssimas levadas a cabo pelo Exército Vermelho no período do «comunismo de guerra», desembocou no regresso ao capitalismo de mercado. Em Março de 1921, o Partido Comunista russo sob, proposta de Lénine, aprovava a Nova Política Económica no seu 10º Congresso que vingaria até à sua abolição por Estaline em 1928.

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Uma das fotografias do noruguês Fridtjof Nansen, vendidas como postal em França e na Bélgica. A sua acção e a ajuda da americana através da A.R.A. (American Relief Administration, constituída pelo Congresso dos E.U.A em Fevereiro de 1924) terá sido decisiva para salvar da fome milhares de europeus até 1922. Nansan, que criou o Comité Internacional para Ajuda à Rússia (1921), defendia a integração do país soviético na ordem internacional e a necessidade de investimento externo para a reconstrução da Eurásia, apesar do governo russo se recusar a assumir a sua dívida externa. A acção da A.R.A., liderada por Hoover (futuro presidente dos E.U.A,) estendeu-se na U.R.S.S. até 1923 e, em conjunto com outras organizações, terão livrado da morte 10 milhões de pessoas. A estimativa dos mortos pela fome e por doenças associadas varia entre 5 a 10 milhões de indivíduos.  Muitos camponeses recorreram ao canibalismo para sobreviverem.

Em Portugal, a clarificação sobre a natureza do regime soviético, até então perturbada pela falta de informação devido à guerra que se prolongava no distante Leste europeu e às barreiras linguísticas e culturais, ocorre nos meios operários nestes anos[3]. A campanha de solidariedade para com os “famélicos russos” levada a cabo pel’ A Batalha, o órgão confederal saído do 2º Congresso Operário Nacional (Coimbra, Setembro de 1919) revela a atenção que era dada àquela região do mundo mas constituiu um ponto de viragem crítico no debate sobre a revolução social a Oriente. Um dos folhetos do explorador e humanista Fridtjof Nansen (1861-1930) foi publicado pel’ A Batalha com o título A Fome na Russia: causa e efeitos (1922), o qual deixava de fora a parte da responsabilidade que cabia aos bolcheviques sobre a fome extrema que atingiu cerca de 37,5 milhões de camponeses do Volga, devido às requisições violentas levadas a cabo pelo exército vermelho nos anos de guerra que precederam e acompanharam os dois anos de secas[4]. Não parecem ter sido produzidos ou publicadas as fotografias chocantes que Nansan capturou e que circulavam noutros países ocidentais na forma de postais (ver imagem). Seja como for, a campanha internacional de angariação de fundos obteve em Portugal magros resultados, apesar das orientações enviadas por Prefeito de Carvalho a partir de Paris. Este militante, que tinha sido enviado em delegacia sindicalista à Rússia com a missão de relatar os acontecimentos naquele país e avaliar sobre a natureza revolucionária e emancipadora da nova ordem social, manteve-se em Paris, defendendo a «ditadura do proletariado».

Contudo, logo em Janeiro de 1922, A Batalha publicava com destaque as resoluções aprovadas do Congresso Anarquista Internacional realizado em Berlim. Os anarquistas declararam-se então “contra toda a ditadura quer seja ela exercida pelos da «direita» quer pelos da «esquerda»” (A Batalha 980, 31.1.1922)  e reiteram os seus princípios de organização anti-capitalista com base no federalismo. Demarcavam-se também da burocracia sindicalista, defendendo a profissionalização dos funcionários administrativos e separando-a dos cargos sindicais para afastar o perigo do controlo faccioso pelas direcções («os donos dos sindicatos»). Manifestavam-se, enfim, contra a Internacional Sindical Vermelha (ISV), identificada como organização de fachada da Internacional Comunista (IC), defendendo a independência dos sindicatos. A acção dos sindicalistas deveria ser orientada para defender as aspirações operárias e não para obedecer a directrizes superiores. Os mesmos princípios levaram-nos a criticar os organismos filiados na Internacional de Amesterdão (1919-1945) bem como a Federação Americana do Trabalho, chefiada por Samuel Gompers (1850-1924), que alinhava então na ofensiva patronal contra os Wobblies da IWW (Industrial Workers of the World ). Essas duas organizações estavam “corroídas pelo vírus colaboracionista e reformista” (A Batalha 980, 31.1.1922).

Em finais de 1921, os anarquistas não tinham já ilusões sobre a natureza contra-revolucionária do Estado comunista russo e da sua estratégia de subordinação e controle do movimento operário a Ocidente. No entanto, a assumpção plena desta visão irreconciliável com o bolchevismo nos meios sindicais encontrava-se já patente no Congresso Operário da Covilhã (1922) no debate aceso sobre a proposta de adesão da C.G.T. à I.S.V. e tornar-se-ia irreversível nos anos que antecederam o golpe militar das direitas em 1926. Tratava-se agora de defender posições junto dos trabalhadores, de responder à propaganda sedutora que mitificava os sucessos da nova sociedade, temida e vilipendiada pelas forças conservadoras e liberais. A publicação da obra que relata o papel dos anarquistas na Revolução soviética russa e a forma como foram aniquilados ou presos, a Repressión de l’ Anarchisme en Russie Soviétique pelo Grupo de Anarquistas Russos Exilados na Alemanha, aparece apenas em 1923. A lista nominal e biográfica de 181 anarquistas russos “vítimas do poder comunista, fuzilados, assassinados ou mortos na prisão surge graças à tradução de Voline (Vsevolod Mikhailovich Eikhenbaum, 1882-1945) como denúncia na altura em que a C.G.T.U. francesa decide aderir à I.S.V.

Ora, esta reacção combatente dos sindicalistas revolucionários e dos anarquistas face aos comunistas partidários no seio das organizações operárias constituiu um epifenómeno da crise da consciência revolucionária que emergiu no final da guerra. Três elementos estruturantes e interdependentes se destacam nessa crise decorrente da I Guerra Mundial: o primeiro diz respeito às representações sobre a revolução, em especial, sobre o momento em que ela poderia ocorrer; o segundo, refere-se ao modo em como ela decorreria e ao papel da violência nesse processo; o terceiro, diz respeito à hipótese libertária, às referências culturais e à representação do anarquista, por um lado, e ao destino do credo leninista.

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Capa do folheto de divulgação do hino revolucionário do jornal A Batalha (Lisboa, 1919). A música foi escrita pelo trompista e compositor Joaquim Thomaz del Negro (1850-1933) com letra do tipógrafo e bibliotecário João Salustiano Monteiro (o fadista João Black , 1872-1955). A ilustração de Vítor Gomes (?) mostra “a Nova Aurora”: um trabalhador de indústria contempla o mundo construído pelo seu trabalho, a promessa duma sociedade sem exploradores nem explorados. (Fonte: Arquivo-Histórico Social)

 

Hino Batalha 2 Na contracapa, a Biblioteca de Propaganda Social anuncia dois títulos sobre a nova Rússia e enuncia os percursores da República Social Bakunine e Kropotkine e, como e os seus caudilhos, Trostky, Lénine e Gorki. O anarquista Eduardo Metzner (1886-1922) escreveu A verdade sobre a revolução russa (1919) depois de ter traduzido A Constituição política da República dos Soviets, prefaciado por L. Trostky, texto que parecia materializar os ideais do federalismo libertário (Silva-2014). Em finais de 1919, o Bandeira Vermelha, órgão da Federação Maximalista, tomava como sinónimos bolchevismo, anarquismo e sindicalismo (Franco-2014).

Em Fevereiro de 1920, a instabilidade política e agitação social em Portugal e por toda a Europa pareciam indiciar que a revolução social estaria iminente. Sobral de Campos, escrevia no órgão confederal um artigo com o título esclarecedor “Preparemo-nos!”, onde defendia o que muitos acreditavam: “a Revolução Social é inevitável, e avizinha-se. Cada dia que decorre, cada hora que passa, faz galgar distâncias enormes, galgas estradas que nos parecem infindáveis. Os acontecimentos precipitam-se, as etapas ardem.” (A Batalha, 13.2.1920). A C.G.T. preparava então a Liga Operária de Expropriação Económica e, nesta altura, o sindicalista José Carlos Rates (1879 — 1945) que iria fundar o Partido Comunista, falava da necessidade imperiosa duma ditadura se “se pretendesse levar por diante um programa de socialização da economia”. Também no 1º Congresso das Juventudes Sindicalistas realizadas em Lisboa em 1921 proclamava-se, como princípio, “a violência como único meio de ação para destruir a sociedade burguesa” e preconizava, “os princípios sindicalistas revolucionários como meio de luta económica e de acção adentro da atual sociedade, educando-se e preparando-se para receber um novo regime social que, tendo por sistema político o anarquismo, e como regime económico e social o comunismo-anárquico, satisfaça os princípios ideológicos concebidos pela juventude proletária de hoje, almejando pela verdadeira Pátria Proletária dum amanhã muito próximo.” (A Batalha, 657, 31.1.1921, p.1). A ideia de que a Nova Aurora estaria iminente era então inquestionável para muitos militantes sociais. De tal forma que, na mesma conferência, o núcleo juvenil dos Metalúrgicos achou por bem registar o seu repúdio pelo “caminho seguido de se discutir muito entre militantes operários de como será a sociedade amanhã e não darem um passo para preparar o proletariado para essa revolução”. (A Batalha, 658, 2.2.1921, p. 1.).

Em breve, o sindicalismo revolucionário e o anarquismo, tal como os socialistas e sociais-democratas europeus, seriam vistos pelos comunistas-bolcheviques como parte integrante da falência intelectual dos teóricos da emancipação humana, materializada nas organizações que produziram e nas acções que desenvolviam. Fascinados pelas vitórias do exército vermelho e pelas novas experiências sociais, viam que as «velhas tácticas» da social-democracia e do socialismo não tinham sido capazes de impedir o holocausto levado a cabo pelas aristocracias e burguesias europeias, nem de transformar a guerra imperialista numa guerra de classes. O debate aceso desencadeado em torno da adesão da CGT à ISV pelos subscritores do manifesto Berlim ou Moscovo, liderados pelos sindicatos arsenalistas, atravessou o Congresso Operário da Covilhã (1922) e reflectia as frustrações com um movimento que parecia atolado na estratégia da «greve geral» insurreccional como meio de levar a cabo o seu programa revolucionário.

A evolução dos acontecimentos na Europa, a derrota dos anarquistas italianos e a ascensão do fascismo, o reconhecimento crítico da nova sociedade soviética, obrigou os anarquistas a repensar as suas representações. Na Conferência Anarquista da Região Portuguesa, realizada em Março de 1923, os anarquistas reconheciam a necessidade desse grande momento violento que iria derrubar a ordem burguesa mas afirmavam-se contra toda a espécie de Estado, mesmo que seja transitório, de partidos ou de classe (“Conceção do Anarquismo perante a Revolução Social e a Ditadura do Proletariado”, A Comuna II, 2, 25.3.1923). A sua posição constituía um ataque violento aos leninistas. Diziam eles, “devemos desmascarar estes hipócritas e maus neomarxistas que ousando levantar o grito de revolta contra a sociedade capitalista, não querem afinal mais do que implantar um novo regime de opressão que, como na Rússia, encarcerará os anarquistas que se rebelarem contra o teu nefasto poder”. Em face da Ditadura do Proletariado, os anarquistas manifestavam “a sua franca hostilidade, combatendo-a pelos mesmos processos e com as mesmas armas usadas contra a presente sociedade”.  Os anarquistas afastavam-se igualmente da forma como os bolcheviques atuavam contra os “inimigos de classe”. Em Março de 1924, o Grupo Comunista Libertário «O Universo», de Évora, ao mesmo tempo que preconizava, através da ação revolucionária, a criação de comunas e a extinção de todo o tipo de privilégios, desde logo recusava admitir nesse processo “a eliminação física dos antigos opressores”. No princípio desse ano, A Comuna tinha já clarificado a posição da União Anarquista Portuguesa (UAP) relativamente à “Atitude dos Anarquistas perante a Revolução Social” (A Comuna, 43 6.1.1924). Nele se afirmava perentoriamente que “o erro fundamental dos revolucionários consiste em considerar a Revolução Social como um facto decisivo”. Pelo contrário, “os anarquistas consideram que a revolução social marcará diversas fases tendentes ao aniquilamento de todas as formas de governo”. Os anarquistas eram agora considerados como utópicos e irrealistas: “os partidários da revolução imediata afirmam que pela propaganda do ideal anarquista só ao fim de muitos séculos talvez se conseguirá atingir o nosso fim” (A. P. Matos, “A Revolução Imediata e a Revolução Social”, A Comuna, II, 16. 1-7-1923).

Essa nova imagem dos anarquistas aparece na obra de Rates em que relata a sua viagem à Rússia em 1924. A sua visão crítica não era tributária desse folheto escrito por Lénine em Abril 1920 sobre a «doença infantil do comunismo», que foi distribuído aos delegados ao II Congresso da Internacional Comunista, mas resultava provavelmente de ideias estereotipadas correntes nos meios bolcheviques, confirmada pela sua leitura da obra do anarquista Victor Serge (1890-1947), La ville en danger, Petrograd l’an II de la révolution  que foi  publicada em Paris pela Librairie du Travail no ano da sua viagem (Rates-1976:111-112)[5]. Reconhecia ele que os libertários tiveram uma parte muita ativa na Revolução Russa mas que o seu “espírito é dado a perpétuos voos, e as suas habituais consequências desastradas”, não abdicando dos seus valores mesmo contra o bom senso em situações quotidianas. No essencial, para Rates a Revolução Russa tinha demonstrado que ser revolucionário pressupunha a disponibilidade para exercer a violência extrema contra outros seres humanos, como eram as execuções sumárias contra inimigos e traidores, em nome de um bem superior. A Revolução Russa, a grande revolução proletária, enfileirava nas grandes revoluções violentas do passado: a Francesa, a Americana, a Inglesa. Ele não tem, por isso, outro comentário quando se depara com um funcionário da tenebrosa Tcheka que não seja o de notar o seu impecável e distinto trajar. E não deixa de se maravilhar com as generosas ofertas (sic) que os camponeses ucranianos dão aos funcionários do Partido nas suas tournées de propaganda (Rates-1976:212-213). Nessa obra destinada a formar militantes comunistas, Rates relatava em poucas páginas o que lhe tinham contado e mostrado. Enfim, pelos seus princípios sublimes e humanistas, os anarquistas não estariam assim preparados para lidar com esta realidade imposta pela História. E como resultado dessa revolução proletária, ele via nascer uma nova civilização e um país em curva ascendente, embora cercado de baionetas, e objeto de calúnias e insultos. A Rússia “romperá inexoravelmente o círculo de ferro que a estreita e imporá a sua civilização”. Seriam assim as realizações soviéticas que iriam redimir os erros e os excessos próprios duma ditadura do proletariado e que dariam alento aos militantes comunistas, nos países capitalistas, a estratégia de participação parlamentar, e de infiltração e conquista dos sindicatos por dentro.

Nos anos que antecedem a ditadura militar, Manuel Joaquim de Sousa, na qualidade de secretário-geral da C.G.T. desenvolverá uma luta ideológica notável na defesa dos princípios do anarco-sindicalismo, na reorganização do movimento segundo essas bases saídas do Congresso de Coimbra (1919) e contra as forças dissolventes internas, nas quais se destacavam a ação dos “moscovitários” dentro dos sindicatos e dentro das Juventudes Sindicalistas[6]. Em Abril de1926, nas vésperas do 2º Congresso das Juventudes, o Partido Comunista é considerado “contrarrevolucionário e prejudicial à luta revolucionária dos trabalhadores em prol da sua emancipação” e o Partido Socialista “um partido burguês e portanto incapaz de conduzir os trabalhadores à sua libertação.” A simples ideia de colaboração com os comunistas é rejeitada. Afinal, a Revolução Russa tinha engando muito boa gente.

Paulo E. Guimarães

Referências bibliográficas

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Notas

[1]  O social-democrata alemão Paul Lensche (1873-1926) oferece-nos uma visão da transformação social que a guerra prometia à escala mundial, iludindo-se sobre o papel de liderança que a Alemanha iria desempenhar no desenlace do conflito (Lensche – 1918, pp.1-2). Os socialistas Paul Vandervelde (1866-1938) e John Reed (1887-1920), tal como o jornalista americano Albert Rhys Williams (1883‑1962) observaram os acontecimentos na Rússia de forma favorável aos bolcheviques ainda no período do “comunismo de guerra” (Reed – 1919; Williams-1921). Na obra de Vandervelde, que seria traduzida para português e publicada pela editora Spartacus em 1925, a violência revolucionária é tratada compreensivamente, invocando o lastro histórico das grandes revoluções sociais dos séculos XVIII e XIX (Vandervelde, 1918, p.237). Para uma leitura académica da evolução histórica da revolução russa feita nos anos ‘20 veja-se a obra de James Mavor (1928) e, posteriormente, a obra de Carr (1958). Uma síntese historiográfica recente encontra-se em Figes (1996).

[2] Uma análise histórica deste período na Europa encontra-se, por exemplo, em Maier (1988).

[3] Sobre o impacto da Revolução Russa na opinião pública em Portugal, as diferentes leituras dos acontecimentos e dos poucos relatos de militantes enviados em missões à Rússia veja-se Ventura (1981), Ferreira (2011), Vilhena (2013) e Leal (2017).

[4]  Os problemas da política coletivista levada a cabo pelo Partido Comunista Russo na Ucrânia foram tratados na  8ª Conferência (2 a 4 Dezembro de 1919). Jakovliv, Secretário do Conselho dos Comissários do Povo, atribuía ao fracasso ao facto de não se terem considerado as condições dos camponeses ucranianos que, depois de sofreram a ocupação alemã, não viam nenhumas melhorias face ao período senhorial. A região do Volga e da Ucrânia foram esgotadas para salvar a Rússia soviética que enfrentava a fome. Em breve, os camponeses levantaram-se contra o poder soviético (Nakai-1981). O conhecimento entre os meios anarquistas portugueses sobre a revolução macnovista não é anterior a 1926 (Makhno, 1926).

[5] Sobre o percurso militante de V. Serge veja-se Price (2007).

[6] Sobre a evolução organizacional e os problemas internos da C.G.T. veja-se Teodoro (2013), Guimarães (2007) e Freire (1997).

Documento

Os anarquistas portugueses face à Revolução Russa e os Partidos Comunistas (1926)

O aparecimento dos partidos comunistas cuja criação é influenciada primeiramente pela revolução russa e atualmente pela III Internacional, nas mãos do governo russo, enganou muito boa gente.

Estes partidos encontraram toda a sua força nas cisões dos partidos socialistas desacreditados pela sua cumplicidade com a burguesia durante o conflito europeu.

Não compreendemos a razão por que se dá a estes partidos a designação de revolucionários e se considera que a sua orientação ideológica seja dum carácter social. Os partidos comunistas são partidos de governo, de predomínio, de força. Valem o mesmo que todos os partidos burgueses, com a diferença de que possuem uma direcção internacional, à qual tem de se submeter.

No princípio da sua constituição estes partidos eram acessíveis a todas as adesões. Atualmente, porém, á III Internacional (de Moscóvia) ordena uma cuidadosa seleção em todos os partidos aderentes, sob vários pretextos. Esta determinação não foi bem aceite por elementos do partido francês, que protestou, resultando cisões no mesmo partido. A Internacional Comunista pretende tornar os partidos comunistas umas delegações políticas e diplomáticas, espécie de secções do ministério dos Negócios Estrangeiros russo, e, ao mesmo tempo, focos de agitação cm cada país.

A III Internacional comete o erro de impor uma política igual a todas as organizações aderentes, sem querer saber da psicologia de cada país. Um dos objectivos principais dos partidos comunistas é a infiltração nos sindicatos, trazendo-os para a causa comunista. Dada a natureza do sindicalismo, que nunca ingressaria numa Internacional política, constituiu-se em Moscóvia uma Internacional Sindical Vermelha que não é mais que um secção da Internacional Comunista e um chamariz aos sindicatos revolucionários que, apesar de tudo, com raras excepções, não se sentem atraídos para lá. E neste facto, os anarquistas, tão odiados por aqueles partidos, têm uma influência preponderante.

Os anarquistas, os sindicalistas revolucionários, têm sido admiráveis no combate a estes partidos intrusos, que têm feito uma obra de destruição, de dispersão de forças, não conseguindo, apesar das perseguições do governo russo e apesar das traições nos outros países, aniquilar, manchar e diminuir o ideal anarquista. E nas ruínas do movimento revolucionário, os anarquistas lutam, repelem esses partidos comunistas que pretendem subor[di]nar tudo ao seu poder.

Somos a facção mais revolucionária, mais aguerrida e mais preste do movimento português. O nosso sentimento de independência é tão forte que nenhum partido político, nem mesmo o comunista, cujo embate fomos os primeiros a sofrer, conseguir absorver-nos. A grande parte dos revolucionários presos são Jovens sindicalistas. Mas falta que a Juventude Sindicalista afirme a sua vontade, defina o seu pensamento, em meio do confusionismo que na falange revolucionária lavra.

Em face do PC devemos afirmar a nossa aberta hostilidade, negando-lhe a qualidade de revolucionário porque é um partido de dissolução, de predomínio, e de governo. Combate-lo-emos, como combateremos os partidos burgueses, como desmascaramos todos os traficantes da ideia revolucionária. Nada de entendimentos com semelhante partido que pretende absorver-nos e asfixiar-nos.

A Comissão Organizadora do II Congresso Nacional, Lisboa, Março de 1926


Como citar este artigo?

Guimarães, Paulo Eduardo (2017) – “O Iconoclasmo Acrata na década de 20”, A Ideia: revista de cultura libertária. II série – ano XLIII – vol. XX – n.ºs  81/82/83.

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