Venha o Verão!

Que mundo é o nosso, hoje? Três universos distintos, que coexistem em espaços bem diferenciados:

O dos países ricos, a que pertencemos (apesar de tudo), onde, a despeito da abundância, previdência e segurança, frequentemente somos inquietados pela ocorrência de um crime, um fenómeno natural ou acidente trágico, ou a ameaça de que querem pôr em causa o nosso bem-estar. A Europa ocidental, a América do norte, o Japão, a Oceânia e os nichos mais endinheirados de todas as metrópoles do mundo constituem a sua localização geográfica privilegiada. A maioria das populações aqui instaladas quer ter uma palavra a dizer sobre quem (e como) os governa, reclama dos impostos excessivos, aboliu a legitimidade da guerra e as violências, conhece um pouco da história e deixa-se seduzir por tudo o que nos aproxima da “ficção científica”.

– Distinto é o mundo dos “descamisados” e das massas efervescentes que aplaudem e choram de comoção em face de líderes carismáticos ou então protestam e tentam apedrejar algum outro caído em desgraça; que se matam entre si dentro das prisões ou pelo controlo das rotas das drogas ou de algum outro tráfico; e se deixam conduzir como rebanhos por “pastores espirituais” ou caudilhos populistas, sempre amados-do-povo. São pobres mas já têm acesso a algumas comodidades (a crédito), adoram os espectáculos desportivos ou musicais-barulhentos, as imagens-choque do cinema e da televisão, e cada vez mais fazem uso de uns pequenos artefactos portáteis de intercomunicação global. A América latina, parte das urbes mais evoluídas de África e da orla meridional e oriental da Ásia e Australásia, e ainda, parcialmente, certos países do leste e sueste europeus, corresponderão a espaços onde predomina esta segunda figuração das sociedades actuais.

Índia: recolector de lixo

-E, finalmente, subsiste um “terceiro mundo” claramente mais miserável e discriminado em relação aos anteriores, que se esconde nos confins territoriais, em ermos ou abandonados interiores asiáticos e africanos, e que se amontoa nos gigantescos subúrbios de cidades com down-towns modernos que existem em África e no Médio-Oriente: gente paupérrima, presas da ignorância, da doença e de quem tenha uma arma nas mãos, sejam traficantes ou agentes governamentais. Por isso, já perderam o apego à terra onde nasceram e são “migrantes naturais”, respondendo apenas ao idioma e à religião identitária que conhecem, que são os últimos refúgios em que procuram abrigar os filhos que vão gerando descontroladamente. Uma dúvida: será este ainda o mundo mais numeroso, relativamente aos outros dois? Provavelmente, sim, mas talvez não por muito mais tempo.

Mas há intensos fios de ligação entre estes três universos: os da economia e do dinheiro que os irriga (permanentes mas nem sempre visíveis); as teias dos meios técnicos e profissionais “da mídia” (bombásticos e deformantes, mas indispensáveis); os problemas transfronteiriços que afectam a composição físico-química e biológica da superfície terrestre, naturais, mas que a humanidade tem contribuído para modelar, provocando por vezes desequilíbrios perigosos para a nossa própria vida; e, bem mais a conta-gotas mas sempre correndo como veios, as movimentações das próprias pessoas (em negócios, missões, turismo, evasão ou procura de um melhor destino).

Na Europa, tudo parece mais emperrado do que em marcha para qualquer destino. Todos falam dos perigos do populismo, da necessidade de incrementar a cidadania europeia mas as duas únicas “cabeças” com aparente capacidade para o promover – Macron e Merkel – mostram enormes dificuldades caseiras para ir avante: o primeiro, parecendo excessivamente amável para com Washington, Moscovo ou Pequim, com um discurso demasiado conceptual (“tipo ENA”) e com uma dura contestação interna às suas medidas económicas (julgando alguns estarem de novo em Maio de 68) para desencravar o Estado do assistencialismo a que boa parte da sociedade o tem obrigado; a chanceler alemã, mais prudente e pragmática, sente-se agora eleitoralmente ameaçada pela direitista “Alternativa para a Alemanha” (AfD) e com reticências dentro da sua própria coligação, e não quer ceder nos interesses próprios da sua indústria. Nestas condições, a reforma institucional-orçamental e financeira da UE enfrenta grandes resistências para progredir. Até porque a pressão despesista que as populações fazem sobre o “Estado providência” não deixa margem para atender a outras necessidades, como as da segurança e defesa (incluindo em altas tecnologias soft): não é previsível a ocorrência de guerras próximas no espaço europeu, mas as ameaças de um Putin ou de um terrorismo islâmico para impor os seus propósitos, sob chantagem, têm de ser tomadas a sério, com os meios convenientes.

Por seu lado, os nacionalismos (de direita), sempre latentes em França, já democraticamente instalados em vários países do leste europeu e agora também em Itália – que às vezes coincidem com o “soberanismo” nacional de alguma extrema-esquerda e a que os eleitores britânicos deram a sua caução –, esses nacionalismos, dizíamos, vão paralisar por largo tempo um europeísmo politicamente mais efectivo e, pelo contrário, alimentarão incessantes querelas e divisões, com os seus próprios insucessos (face às promessas feitas) a criarem ainda mais desorientação nos eleitorados, não sendo de excluir radicalizações violentistas de um tal processo.

Se esta intrincada situação se agravar, os democratas moderados e realistas – conservadores, liberais ou sociais-democratas – tenderão a apelar aos sentimentos “anti-fascistas”, cuja memória já apenas subsiste em camadas mais idosas da população, no que serão aguilhoados por algum “esquerdismo”, que vive em grande medida imbuído na cultura dessa agressividade mais extrema. Mas, seja nos actuais alertas contra o “populismo”, seja nessa versão mais agravada do “anti-fascismo”, o que tais forças democráticas estarão também fazendo é o encobrimento das responsabilidades próprias, que lhes cabem, enquanto partidos há muito monopolizadores da governação estatal, gestores dos negócios públicos com múltiplos conluios de interesses com os diversos potentados económicos, decretando medidas meramente de acordo com as “sondagens” do momento e, nas últimas décadas, fautores e beneficiários de práticas de corrupção e compadrio – que tanto revoltam sectores importantes da população. Entretanto, esta última, em especial no que toca aos “jovens” (de menos 40 anos), vai-se divertindo com as suas noitadas, na celebração alcoólica de uma finada Amy Winehouse (“amèlinha das adegas” em português corrente), com ocasionais acessos de fúria clubística ou contra “a precariedade em que nos mergulharam”. Ainda uma palavra sobre o líder espanhol do Podemos, Pablo Iglesias (que nome! – o do histórico fundador do PSOE e da UGT): o homem pode ter visto a sua residência de 600 mil aprovada em referendo pelos militantes do seu partido; mas, simplesmente, não o devia ter feito. Sendo dos que consideram injusto o actual sistema sócio-económico, deveria prescindir das benesses que este dá à sua “classe média superior” – não apenas por razões éticas, mas também porque, assim, o seu discurso político radical perde toda a credibilidade.

On another hand, os teatros estratégicos do Próximo-Oriente e do Extremo-Oriente têm surgido como aqueles onde os riscos de convulsões violentas mais se têm evidenciado, que decerto produziriam efeitos sistémicos sobre todo o planeta. Neles, a Rússia, a China, o instável conglomerado regional de estados árabes-muçulmanos e, obviamente, os Estados Unidos, têm concentrado o principal dos seus recursos de potencial agressão mútua: gestos políticos, propaganda, meios económicos, armas poderosas em stand by e financiamento/instrução de agentes de violência mais localizada. Neste ponto, e dada a organização do poder político destes grandes “blocos” ou países de escala regional, é decisiva a personalidade do governante máximo. Não podemos, assim, deixar de estar preocupados com as imagens que nos chegam de um Donald Trump ou de um Putin; de um Kim Jong-un, de um Duterte ou de um Erdogan; ou mesmo de um Xi Jinping, de um Rohani, de um Netanyahu, de um Al-Sisi, de um bin Salman, de um Hussain ou de um Modi. Em boa parte destes regimes, é vão pensar por agora em formas democráticas de limitação do poder dos governantes (que, pelo contrário, podem até legitimar protagonismos virulentos dos líderes) mas é desejável e preferível que antes ocupem o poder indivíduos moderados e negociadores, em vez de megalómanos ou perturbados.

Finalmente, entre nós, desenha-se um final de legislatura que nem pessoas optimistas como os actuais PR e PM conseguem “descrispar” completamente. O PC parece estar claramente em rota de “split” (vide o presente surto reivindicativo sindical) e a preparar-se para nova legislatura de oposição, restando a curiosidade de saber como vai votar o orçamento de 2019. Mas se o PS precisar do Bloco de Esquerda para formar novo governo, lá se vão por água abaixo quaisquer hipóteses de mexida na Constituição ou outras reformas políticas de fundo que Rui Rio poderia talvez proporcionar. E atenção que a máquina impressora de notas do BCE está prestes a terminar o seu programa de “compra de dívida” a juros baixos!

Em todo o caso, como em muitos outros países democráticos, o nosso “complexo financeiro-governamental-mediático” funciona em roda-livre, fora de qualquer controlo efectivo dos cidadãos. Não se trata porém de uma simples coligação de poderes maléficos, mas antes de entendimentos parciais de duplicidades não-evidentes. Na esfera do capital, longe vão os tempos em que se podia sonhar com participações accionistas dos trabalhadores nas empresas ou com clubes-de-investidores da classe média como forma de popularizar e democratizar a vida económica, pois os volumes monetários circulando constantemente no mundo por acção de diversos players (jogadores lucrativos, em sentido pleno, como são os governos, as grandes cidades, as empresas multinacionais ou altos especuladores não-identificados) já não o consentem, embora esta globalização esteja também a tirar da miséria milhões de indivíduos que até agora sobreviviam miseravelmente “fora do sistema”: verbi gratia o caso chinês, para quem Portugal é uma das portas de entrada na Europa (e a Índia pode ser o parceiro seguinte, já que do Brasil pouco se espera agora).  Por seu lado, os poderes executivos nacionais (ou autárquicos) saídos de eleições ficam constrangidos por essa circunstância, pela vigilância das oposições e a coscuvilhice dos media, embora o prolongamento dos seus exercícios leve “os políticos” a práticas de apropriação do que é de todos, em benefício próprio (estimulando carreirismos partidários e oportunismos, por falta de padrões éticos): vejam-se as numerosas “maçãs podres” dos nossos três partidos do pretérito arco-do-poder. Finalmente, os próprios meios de comunicação social: tanto nos intoxicam com excesso de informação, falseiam a concorrência e se prestam a muitos jogos-de-poder, como são um derradeiro meio de escrutínio e contraditório ainda à disposição dos simples cidadãos – citem-se os exemplos da “futebolite” aguda que nos atinge ou, em sentido oposto, o jornalismo-de-investigação que segue geralmente na dianteira dos Procuradores da República (embora o fenómeno também possa ter diversas origens e significados). E nas “farpas” que certos cronistas mais talentosos vão cravando no nosso quotidiano “de chácha” cumpre-se a função essencial de desafio aos detentores (ou usurpadores) dos diversos tipos de poder, ainda que por vezes de forma exagerada, mal-intencionada ou insuficientemente investigada.

Por exemplo, J. M. Tavares, ao escrever “E acabar de vez com as progressões automáticas?” (Público, 7.Jun.2018) tem razão no essencial do seu argumento (digo eu), mas desconhece tudo o que em termos científicos (sociológicos ou psico-sociológicos) foi já discutido sobre a matéria, à distância dos processos políticos como os governantes europeus foram tratando o “seu” funcionalismo público e antes que os gestores empresariais tivessem passado a encarar a questão da remuneração do trabalho como um assunto exclusivamente económico, como agora acontece. É que, uma coisa são carreiras com categorias e exercícios profissionais bem diferenciados a que se acede por mérito (sobretudo quando há sujeição a vaga em quadros logicamente piramidais); outra, a “balda” das meras ascensões por tempo de serviço (geralmente sob o nome de “escalões”) com pífias justificações de “bom comportamento”, a que os sindicatos se agarram como justificação; outra ainda, as funções fixas e sem progressão profissional (industriais, comerciais ou de prestação de serviços simples) para as quais as doutrinas gestionárias tendem a recomendar a adjunção de prémios de produção a um salário mínimo insuficiente – mas onde, diferentemente, uma teoria como a de Elliot Jaques, por exemplo (vide Measurement of Responsibility: A Study of Work, Payment and Individual Capacity”, 1972), procurava fundamentar uma remuneração equitativa, entrando em linha de conta não apenas com o contributo do trabalhador para a produção colectiva mas também com a evolução (não-linear) das suas necessidade de consumo ao longo da vida. Eis um exemplo de como as ciências sociais poderiam contribuir mais utilmente para uma melhoria estrutural da qualidade de vida das populações.

João Freire / 21.Junho.2018

 

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