Angolanos e Moçambicanos na Bélgica, em Maio 68 |Artur da Costa

Quando cheguei a Bruxelas em 1968, já por lá viviam angolanos e moçambicanos que eu tinha conhecido em Angola e na Casa dos Estudantes do Império (CEI), em Lisboa. Pouco tempo depois da minha chegada vieram outros. Mas também havia angolanos e moçambicanos em Liège e Leuven onde frequentavam a secção francófona da «Université Catholique», na qual estudavam muitos jovens da América Latina e de África. Era o caso de Mena Abrantes, dramaturgo e encenador, que só conheci mais tarde, quando me foi apresentado depois da Independência angolana, no Teatro Elinga, em Luanda. E também daquele estudante que seria mais tarde músico e cantor de renome, José Barceló de Carvalho, dito “Bonga”, de quem o Gago da Silva, que tinha residido em Leuven me falava muito quando se mudou para Bruxelas. Do mundo católico passavam nesse tempo pelo «Instituto Lúmen Vitae», em Bruxelas, alguns sacerdotes e candidatos a sacerdotes provenientes de Angola e de Moçambique. Estávamos atentos aos escritos de missionários belgas e holandeses sobre questões sociais nestas duas colónias. Também na capital belga chegaram moçambicanos, como o realizador Camilo, mas que viviam num bairro distante e com quem não convivíamos.

Artur da Costa
Artur da Costa em Bruxelas

Os angolanos e moçambicanos com quem eu convivi em Bruxelas nesses anos de exílio, passavam sobretudo pela cantina da ULB na cidade universitária, onde eu trabalhava, assim como outros exilados, ou nos cafés do bairro da Universidade, ou nos apartamentos que alugávamos nessa parte da cidade. Éramos quase todos alunos na ULB, dispersos por cursos com alguma coisa que nos interessava de África (Antropologia, Sociologia, Economia, História – de África e da Arte, e Ciências Políticas), e nos quais havia professores e assistentes com uma experiência africana e titulares de cadeiras vocacionadas para questões africanas, por vezes muito controversas para a “nossa revolução”. Todas essas questões eram transversais a todos nós, qualquer que fosse o curso. Assim, ficámos a conhecer as obras de autores como a do belga Jan Vansina: Les Anciens Royaumes de la Savane, publicado em inglês em 1965, de que nos apareceu a edição francesa por esses anos; de Jacques Maquet, outro autor belga, que publicou Les Civilisations Noires (1962) e Pouvoiretsociétésen Afrique (1970); Jacqueline Delange com a sua obra Artsetpeuples de l’Afriquenoire. E também os trabalhos dos nossos professores na ULB como Luc de Heusch [também cineasta ligado ao movimento CoBrA]: LeRwandaet la civilisationinterlacustre. Études d’anthropologie historique et structurale (1966), Pourquoi l’ épouser? Et autres essais (1971), Le roi ivre ou l’origine de l’État [Mythes et rites Bantous] (1972) ; Marie-Louise Bastin, era especialista da cultura e da artetradicional dos povos de Angola, tendo publicado: Art décoratif Tshokwe (1961), Tshibinda Ilunga: héros civilisateur – à propos de statuettes Tshokwe représentant un chasseur (mémoire-1966), La sculpture Tshokwe : essai iconographique et stylistique» (tése-1973), Y a-t-il des clés pour distinguer les styles Tshokwe, Lwena, Songo Ovimbundu et Ngangela ? (1971); Eric Pollet e Grace Winter, La société soninke (Dyahunu, Mali) (1972), etc. Aliás, as «mémoires» (teses) que escreviamos para obter a licenciatura na universidade, tratavam de assuntos ligados às nossas terras de origem ou onde tínhamos vivido.

Convêm referir que alguns de nós frequentavam a Bibliothèque Africaine, na Place Royale, e o Museu [colonial] de Terwuren (Musée Royal de l’AfriqueCentrale), que possuía uma fabulosa colecção de Arte Africana, da qual, peças riquíssimas de Angola. (Aliás, víamos com espanto e alguma raiva, muitas peças angolanas, em lojas privadas de arte africana no centro da cidade, peças que tinham chegado ali não sabíamos como!) Na chaussée d’Ixelles, muito próximo da Place Ferdinand Coq, havia a Livraria Africana, do portuense António Ramos Enes, marido de Marie LouiseBastin.

Um aspecto importante da actividade dos africanos e dos opositores portugueses no exílio na Bélgica foi a denúncia da guerra colonial junto da opinião pública local (através da imprensa, de panfletos, de mesas redondas, etc.), não esquecendo que o país albergava a OTAN, e em Bruxelas estava a sede do Marché Commun.

Inúmeros foram os meetings em que participávamos na Universidade. Estávamos numa época de grandes controvérsias políticas e ideológicas, com enormes reflexos em África, exacerbadas durante os acontecimentos de Maio 68, em França, que tiveram repercussões na Bélgica, em particular no meio estudantil. Não esquecendo que os estudantes belgas eram filhos ou netos das tragédias do Congo (Leo) e do Ruanda. Mas, mais importantes para nós africanos exilados eram as lutas de libertação em África, os movimentos revolucionários na América Latina e a longa guerra do Vietname. Lembro-me que Lobato Faria me contou que havia na Universidade uma importante comunidade de estudantes vietnamitas que estava profundamente dividida entre os que apoiavam a luta contra a invasão norte americana e os que eram favoráveis ao regime de Saigão. Nós seguíamos com atenção os dramáticos acontecimentos no Congo (Leo), nos Camarões, e noutros países africanos. Seguíamos com interesse as publicações em Bruxelas de Jules Chomé: Moise Tshombe et ‘escroquerie katangaise (1966), Mobutu et la contre-révolution en Afrique (1967), Le drame du Nigéria (1969), e L’ Ascension de Mobutu, du Sergent Désiré Joseph au Général SeSe Seko (1974). E continuávamos envolvidos nos movimentos contra o Apartheid e para a libertação de Mandela e seus companheiros. Chegavam-nos informações sobre a repressão colonial e sobre o julgamento em Lisboa de angolanos nos anos 70, como o processo de Joaquim Pinto de Andrade, Presidente Honorário do MPLA, onde também se encontravam no banco dos réus antigos membros da CEI, Álvaro Santos “Zefus”, José Ilídio Cruz e António Ferreira Neto. Alguns de entre nós estavam relacionados com o Angola Comity, de Amsterdão, de quem recebíamos a sua publicação Facts & Repports (e para quem enviávamos aliás informações e recortes de jornais belgas e franceses). Também mantínhamos algumas ligações com o movimento britânico anti-apartheid, do qual recebemos: Modern África – 1870-1970, de Barry Williams (1970), e África Discovers Her Past, de J. D. Fage (1970). Relações cautelosas, porém, porque o meio estava certamente infiltrado e esses movimentos também. Havia por isso uma caixa postal de destinatário belga que nos ajudava. Chegava também a Bruxelas o Mozambique Bulletin vindo de Argel ou Dar-es-Salam. Em Milão pudemos comprar “MPLA/ Angola: una rivoluzionze in marcia”, com textos recentes sobre a luta de libertação, reunidos por Mário Albano, Edizione Jaca Book (1972). Mas era em Paris que na altura se publicavam mais livros e revistas sobre África. Destacamos as publicações da Présence Africaine e L’Afrique Noire Pré-coloniale, de Hubert Deschamps (1969) e La Mort Sara, de Robert Jaulin (1967).

Líamos com interesse as reflexões sobre a questão colonial nos Cadernos de Circunstância, de um grupo de Paris (ao qual pertencia o Alfredo Margarido da ex-CEI), e na revista Polémica, do grupo de Genebra. Também foram importantes as publicações do movimento terceiro-mundista inspirado na Conferência Tricontinental de Havana (1966).

Entre os angolanos e moçambicanos que cito aqui, que viveram o exílio em Bruxelas, a maior parte eram antigos membros da Casa dos Estudantes do Império. Depois das Independências, alguns regressaram a Angola e outros a Moçambique. Mais tarde regressaram outros.

Nesses anos, a Bélgica ainda era um país bastante acolhedor, obtinha-se com certa facilidade o estatuto de refugiado das Nações Unidas. Por outro lado, havia partidos políticos e organizações de solidariedade que ajudavam os movimentos de libertação das colónias portuguesas. No “Itinerário do MPLA através de documentos e anotações de Lúcio Lara” “Um amplo Movimento…” (vol. I), encontram-se, em cartas de Mário de Andrade e de Lúcio Lara, referências ao jornal “La Gauche”, cujo director era Ernst Glinne, do Partido Socialista Belga, que já no fim dos anos 50 publicava artigos sobre a repressão em Angola, numa altura em que a opinião pública europeia pouco ou nada conhecia sobre as colónias portuguesas. Um desses artigos foi escrito por Mário de Andrade, que esteve na Bélgica com Ernest Glinne: “Por detrás da cortina da mentira e do medo – Inquietações e vagas de terror em Angola” (transcrito no anexo 11 do livro citado de Lúcio Lara). Nos anos 70, antes da independência de Angola, Agostinho Neto veio mais de uma vez a Bruxelas, onde foi recebido a alto nível por representantes do mundo político, sindical e católico, em encontros organizados pelo Comité ContreleColonialismeetl’Apartheid, presidido por PaulettePierson-Mathy, professora na ULB. Convém lembrar que nessa altura o governo francês recusava ao Presidente do MPLA o visto de entrada em França.

No final dos anos 60 ou princípio de 70, realizou-se em Bruxelas o Congresso Internacional sobre Conflitos Armados e Direito da Guerra organizado pela ULB, no qual Joaquim Chissano (da FRELIMO) apresentou uma defesa da Guerra de Guerrilha enquanto meio legítimo de lutar por parte dos povos oprimidos. 

O Rui Veiga Pinto e eu estivemos com o Óscar Monteiro, antigo da CEI, quando ele veio à Bélgica em representação da FRELIMO para um meeting na ULB organizado pelo Comité ContreleColonialismeetl’Apartheid. Encontro onde também estiveram representantes do MPLA e da SWAPO. De igual modo, o Rui Veiga Pinto, o Lobato Faria e eu, estivemos com o Beto Traça, outro dos tempos da CEI, futuro general das FAPLA, quando ele passou pela Bélgica. Na mesma época vieram a Bruxelas, a Astrid de Carvalho, exilada em Milão, o António Faria e o Henrique Dinis da Gama, todos da CEI, e também o meu velho amigo Carlos Pires que tinha feito parte do nosso pequeno grupo do Huambo, nos tempos difíceis dos anos 60.

Ao Comité dirigido pela Professora Paulette, e à livraria de António Ramos Enes, no que diz respeito a Angola, chegavam livros que nos foram extremamente úteis. De 1967: Angola, Cinco Séculos de Exploração Portuguesa, de Américo Boavida (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira); Literatura Africana de Expressão Portuguesa. Poesia. Antologia temática, por Mário de Andrade (Argel, Dezembro, 2ª Edição) – A direcção literária da colecção era de Mário de Andrade, Sérgio Vieira, Tomás Medeiros, e era produzida na gráfica C. P. Heineken. Correspondência para 162, Avenue Abdelka der Ziar, St. Eugène, em Alger. Muitos poetas angolanos fazem parte da antologia). De 1969: Consciência da Luso- Tropicalidade (Seus princípios humanistas, sua visão da África Pré-Portuguesa, sua constituição, seu futuro e responsabilidade), por António Ferronha (Luanda, Angola); Lapoésieafricaine d’expressionportugaise: évolution et tendances actuelles (Antologie), par Mário de Andrade (Paris, Pierre Jean Oswald, Colection P.J.O. Poche). De 1970: Distribuição Étnica da Província de Angola, por José Redinha (Luanda, CITA – Centro de Informação e Turismo de Angola). De 1971 : La guerre en Angola. Étude sócio-économique, par Mário de Andrade et Marc Ollivier (Paris, François Maspero);La revolution en Afrique. Problemesetperspectives, par João Mendes (Boulogne, 2ème édition, Préface Jean Suret-Canale, Postface Mohamed Harmel) – Embora de origem moçambicana, João Mendes viveu em Angola e esteve ligado em França ao grupo da FUA ; Reflexões sobre a arte negra (Ensaio), por Mesquitela Lima (Luanda, Instituto de Investigação Científica de Angola, Relatórios e Comunicações, Ilustrado); Vidas Novas, de Luandino Vieira (Publicado em Paris por Madame A. Bros) – À venda em Bruxelas no mês de Janeiro de 1972. De 1972 : A propos d’un livre récent: Mythes, legendes et objects pastiques dans l’ histoire chokwe, par Alfredo Margarido. In: Société Française d’ Histoire d’ Outre-Mer, Tome LIX, N.º 216, 3e Trimestre 1972: 491-504 (Separata) ; L’ empire Austral (10.III. Empire Austral et Unité Africaine en 1971), pp. 464-471), in:Idéologies des Indépendances africaines, par Yves Bénot. Paris, François Maspero, 1972 (Cahiers Librés 234-235) ; Les partis de la lutte armée (10. V. Empire Austral et Unité Africaine en 1971), pp. 494-508), in:Idéologies des Indépendances africaines, par Yves Bénot. Paris, François Maspero, 1972 (Cahiers Libres 234-235) ; Luttes armées africaines ((10.IV. Empire Austral et Unité Africaine en 1971), pp. 472-493), in: Idéologies des Indépendances africaines, par Yves Bénot. Paris, François Maspero, 1972 (Cahiers Librés 234-235). De 1973: A onda (poemas), de Manuel Rui (Coimbra, Centelha – Poesia do Nosso tempo, 6) ;Figuras antropomórficas dos cestos de adivinhação dos Quiocos, por M. L. Rodrigues Areia (Coimbra, UC, 1973); Práticas e ritos da circuncisão entre os Quiocos da Lunda, por José Redinha. Luinda, Fundo de Turismo e Publicações, 1973, 51 pgs. Ilustrado. De 1974: L’ Angola Traditionnel (Une introduction aux probèmes magico-religieux), par M. L. Rodrigues Areia (Coimbra, UC); No antigamente na vida. Estórias, de Luandino Vieira (Lisboa, Edições 70). De: 1975: Angola, Dossier IDOC Internacional; História de Angola (Porto, Afrontamento, Colecção: Libertação dos Povos das Colónias, 8). [Publicado inicialmente em Argel, 1965, pelo Centro de Estudos Angolanos, criado e dirigido por Henrique Abranches]; Subsídios para o conhecimento médico e antropológico do povo Undulu, por J. A. David de Morais, Alberto Gouveia e João da Rosa (Lisboa, Separata dos Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Volume II, n.ºs 1 a 4, Janeiro/Dezembro, com Fotografias, Quadros, Tabelas e Gáficos).

É evidente que esta pequena resenha sobre o “exílio” em Bruxelas, que contém muitas informações fornecidas pelo Eduardo Medeiros, está longe de ser exaustiva. Esperemos que outros, que procuraram refúgio na Bélgica, ou noutros países, nos anos 60 e 70, nos tragam mais informações e opiniões para se poder fazer a história desta diáspora africana.

Artur da Costa é angolano, nasceu em Luanda, passou pela Casa dos Estudantes do Império em Lisboa, esteve preso pela PIDE, exilou-se em Bruxelas onde se formou em História da Arte.

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