Feminismos e outros assuntos menores

A questão das infraestruturas económicas de uso público merece uma atenção mais séria e ponderada do que as costumeiras operações de propaganda governamental, de demagogia oposicionista e de especulação informativa a que geralmente “temos direito”. Os transportes terrestres – de pessoas e mercadorias, rodoviários e depois ferroviários  – desde há muito constituíram meios essenciais para a vida e o progresso das comunidades

Ponte 25 de Abril
Ponte 25 de Abril e Cristo-Rei

humanas; os marítimos, tornaram-se dispositivos especializados para o mesmo fim, mas exigindo novos saberes e competências profissionais; e os aéreos, que transformaram mais uma vez a paisagem humana, já exigiram investimentos só ao alcance de muito poucos. Um dia será talvez o caso também dos voos espaciais. Mas tem-se caminhado sempre no sentido da maior escala, complexidade técnica e massificação de utentes. O que exige cientistas capazes de eficientes adaptações tecnológicas, e engenheiros e operadores especializados na sua manutenção e funcionamento. O investimento financeiro, o móbil do negócio e os modelos de gestão têm variado ao longo do tempo: a cargo do Estado e custeados pelos impostos; em “monopólio natural”; sob concessão; em regime de concorrência, mais ou menos regulada; etc. Mutatis mutandis, o mesmo se poderia dizer das comunicações e da difusão informativa (dos correios ao telégrafo, ao telefone e TSF, à rádio e televisão, à Internet, às amigáveis tecnologias “Tokà-ki”, etc., além do caso especial da imprensa, que foi também instrumento de cultura). O governo socialista de José Sócrates falhou nas tentativas de lançar o comboio de-alta-velocidade-e-bitola-europeia, do novo aeroporto e da terceira ponte sobre o Tejo. Provavelmente, teria sido mais um “buraco financeiro”, mas não é também verdade que a “solução Montijo” vai ser um apenas um remendo para dez anos e, por outro lado, notoriamente ridículo o foguetório de propaganda para as poucas dezenas de quilómetros de ferrovia entre Évora e Badajoz agora anunciadas, quando as mercadorias de Sines continuarão a ter de andar às voltinhas para chegarem à vista do templo de Diana? Uma coisa parece indiscutível: no passado, estes assuntos situavam-se na esfera quase exclusiva dos poderes, dos técnicos e dos mais ricos; hoje, são, em primeira mão, da alçada de engenheiros, financeiros e decisores públicos, mas também, indubitavelmente, do domínio da comunidade de cidadãos, que querem ter uma palavra a dizer sobre cada uma das escolhas cruciais que podem influenciar o seu futuro, além de exprimirem opiniões quanto ao modo como tais serviços lhes são “oferecidos”. Os primeiros são indispensáveis mas têm também interesses próprios a defender (individualmente e como classe profissional). Os segundos, apesar de ignorantes técnicos de tais matérias, são os que mais próximos se encontram do interesse geral da sociedade em que vivem. Devia ser forçoso tirar consequências deste tipo de considerações.

Futebol
Futebol, espectáculo para as massas

Um brado de indignação tem de ser lançado acerca do futebol! Já  não bastava a “imoralidade” das remunerações dos grandes jogadores e a excessiva focagem mediática sobre este espectáculo para, no caso específico deste pequeno país à-beira-mar-plantado, termos que “gramar” agora uma dose de comentários futebolísticos nas televisões que só nos pode colocar entre os mais primitivos e atrasados do planeta. Há dias, em “horário nobre”, contei serem sete canais de informação a darem em simultâneo a entrevista a um treinador após um jogo da sua equipa! Só talvez um terramoto como o de 1755 ultrapassasse esta concentração informativa!… A Autoridade da Concorrência não intervém? Depois, como se já não chegassem as pequenas corrupções de árbitros com aparelhos fotográficos, “borlas” de fins-de-semana ou com “alternantes”, veio o tempo das comissões por-baixo-da-mesa nas transferências de “craques” ou votações corrompidas de grandes eventos internacionais e, agora, o dos peritos informáticos que inventam apostas clandestinas de jogos traficados ou “espionam” os segredos inconfessáveis dos adversários e acabam em casos-de-polícia. Não haverá motivo para um levantamento de públicos, praticantes e jornalistas sérios para pôr termo a este estado de coisas? Apesar disto tudo, seja o F. C. Porto ou seja outra, parabéns à equipa que acabe por ganhar o campeonato nacional deste ano, porque o terá conseguido no terreno de jogo! Mas lastimo: a agressividade supra-desportiva incutida aos jogadores e expressa verbalmente pelo treinador portista, com as “costas quentes” pelo seu presidente; a permanente “língua-de-pau” dos responsáveis encarnados, inchados por possuírem a maior claque nacional; e as inqualificáveis atitudes do presidente de um simpático Sporting que continua a “perder por poucos” e onde até a “língua-de-trapos” do seu astucioso coach fez figura de pessoa de bom-senso. Todos eles e alguns discípulos – mais boa parte dos jornalistas e comentadores do ramo – contribuíram para reforçar o abaixamento geral da cota destes agentes a que se vem assistindo nos últimos anos, os quais constituem péssimos exemplos para os jovens adeptos, ao mesmo tempo que incendeiam os ânimos dos mais “descerebrados”.

Devo confessar que aprecio bastante a nação britânica, apesar a sua irritante postura de superioridade, do imperialismo de que foi capaz e da violência alcoolizada a que também por vezes os seus homens se entregam. Mas a bravura com que são capazes de se bater por uma causa merecida, o seu consabido pragmatismo e a sabedoria social que é suposta por instituições de governo (local ou nacional) com mais de dois séculos de experiência não devem ser desprezados; tal como o brio com que são capazes de se apresentar em público e, na devida hora, comungarem no mais liberto e fraternal dos convívios. Na actualidade, o estado do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte aparece-nos em notória má postura. Depois da mal-fadada consulta referendária de 2016 que decidiu um “Brexit” e com uma primeira-ministra pouco convincente, não se sabe como vai terminar este processo daqui a um ano: Que impacto orçamental terá o acerto de contas com a UE, que representará um reembolso da ordem dos 50 mil milhões de Euros a favor de Bruxelas? Como “encaixará” a City a transferência de muitas sedes de negócios financeiros para Paris ou Frankfurt? Como se resolverá a questão da fronteira terrestre do Ulster com a Irlanda católica? E como ficarão as futuras relações comerciais/alfandegárias, com ou sem o problema da mobilidade das pessoas associado, o qual também investe os domínios do intelligence, da segurança e da defesa comum? Por questões de simpatia, não seria eu que choraria a independência da Escócia ou a criação de uma República em Londres, como consequência a prazo deste processo. Mas estamos ainda longe disso e, até lá, muita coisa má pode acontecer, como o fortalecimento nas urnas e a radicalização de um UKIP em sentido ainda mais populista-xenófobo, ou manobras diplomáticas insuspeitadas. Mas confio que, mesmo em pleno desconchavo, a velha fibra britânica que venceu prussianos e nazis com pesados sacrifícios próprios será capaz de responder da maneira mais apropriada, com soluções que salvaguardem as liberdades essenciais.

E como não podia deixar de ser, o feminismo contemporâneo tornou-se em mais uma ideologia, que vai correndo agora pelo mundo. Apoia-se sobre o seríssimo problema da desigualdade social entre homens e mulheres, tão antiga que não pode deixar de mergulhar as suas raízes nas condições naturais em que a vida humana se desenvolveu à superfície deste planeta a que chamamos Terra, com as suas diferenças e superiores qualidades relativamente às outras espécies vivas, mas também com traços comportamentais com elas parecidos. Este, o das diferenças entre sexos e da subordinação

Me too
#MeToo um movimento que nasceu nas redes sociais contra o assédio sexual contra mulheres, em especial, no local de trabalho.

em alguns aspectos da mulher ao homem, é um deles. Negar isto, pode ser uma manifestação de revolta existencial, de crença, de projecto político ou de ideologia, não de observação científica. O caminho e as etapas transpostas pelas religiões, pelos filósofos, por poderes políticos mais esclarecidos e, actualmente, por especialistas das ciências sociais e humanas no sentido de “emancipar” e tornar as mulheres “mais iguais” aos homens – nos planos jurídico, da actividade e da consideração social – corresponde, assim, a todo um esforço secular de humanização das sociedades, que está ainda longe de se poder considerar terminado. O movimento “Me too”, as acusações e confissões com atraso de décadas ou as manifestações exibicionistas de algumas mulheres são apenas sinais – nem sempre felizes ou eficazes – desse movimento social e, sobretudo, mais um efeito da intercomunicatividade electrónica global. Já sabíamos que, quando se passa do espaço privado (onde todos os discretos despotismos são possíveis) para o domínio público, vem logo a imposição da letra-da-lei e da razão-de-Estado, com novas arbitrariedades. Agora sabemos também que o “espaço público” pode ser igualmente o da turba e das reacções-em-cadeia não reflectidas, não apenas de uma multidão descontrolada mas de milhares e milhões de indivíduos agindo sobre a Internet. Como então distinguir o assédio, de um milionésimo caso de amor ou de paixão? O fundo, porém, é inequívoco: avança-se para uma maior igualdade social entre homens e mulheres, e isso só pode ser positivo, apesar das resistências e dos desvarios. Mas a Natureza ainda manda, embora muitos julguem tê-la dominado (vide as questões levantadas pelas tecnologias genéticas) e como nos demonstra, a nós portugueses, o último Outono-Inverno com sol, seca, frio, chuva, cheias e temporais, depois de um Verão de chamas e faíscas. Valerão, no próximo, as medidas tomadas pelas autoridades? Ou a auto-defesa das próprias populações?

João Freire / 1.Maio.2018

 

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