Agora: Sociabilidades…

O “carácter nacional” (ou a ideossincrasia, se se preferir) de cada povo apresenta traços verdadeiramente singulares, embora a miscigenação e a inter-culturalidade actual estejam lentamente a esbatê-los.

pexels-photo-93490.jpeg

Em Portugal, somos terrivelmente individualistas, mesquinhos, desconfiados e invejosos. Temos razões para isso. Depois de uma Igreja que a todos prometia o Céu e a alguns deu a fogueira da Inquisição; de uma Realeza que gostava que o povo a aplaudisse, mas só “de longe”; e de um Constitucionalismo que entronizou o “reino dos dirigentes partidários” – que outra coisa se poderia esperar? Mas, no seu próprio seio, o “bom povo português” não cuspiu nestes exemplos vindos do alto: lembremo-nos dos litígios de vizinhança camponesa dirimidos à sacholada, dos casos do tesoureiro da associação que fugiu com a caixa, ou do pequeno pároco que prega a abstinência e o celibato… para terceiros. O povo foi mais esperto (do que teria sido a arranjar encrencas com os grandes da terra): foi-se embora! – nas naus dos descobrimentos, nas aventuras coloniais ou na emigração para países mais afortunados. Mas comove-se até às lágrimas quando certas circunstâncias lhe recordam a terra-natal, como repouso imaginário das suas labutas e panteão imaterial da sua portugalidade (com o fado, Fátima ou os heróis do futebol…). Na realidade, a confiança, como valor social, é pouco expressiva entre nós. O Montepio Geral deveria ser uma instituição financeira da chamada economia social (como Fernando Ribeiro Mendes não se cansa de proclamar) e, a esse título, ajudar os cidadãos de mais modestos recursos e as outras instituições não-lucrativas do “terceiro sector”. Mas, pelos vistos, desde há muitos anos já que os seus administradores o empurraram para “negócios comuns” onde primam o lucro, os dividendos e os prémios dos gerentes, tendência a que o Sr. Tomás Correia terá dado inusitado impulso, apesar das críticas sempre presentes de Eugénio Rosa, economista certificado do PCP. Poderá ainda o Padre Vítor Melícias, franciscano em tempos “director de consciência” de Marcelo e Guterres, que preside à assembleia geral da Associação Mutualista (e que já foi administrador), fazer algo para corrigir as derivas? Ou será ao financeiro profissional Dr. Carlos Tavares (que já liderou a CMVM e passou por um governo de centro-direita) que competirá tal missão à cabeça da Caixa Económica, e para a qual terá pedido um “período de observação” de seis meses? É que não são apenas (e são muitos) os mais de seiscentos mil sócios do MG-AM a estarem em risco de ser abusados: são os meros depositantes e mutuários, e é toda a economia portuguesa que, nesse caso, apanharia um novo abanão provindo do seu sector financeiro. Como se já não bastassem os “casos” do passado recente e a última injecção-de-capital (dos contribuintes) na CGD, que lá voltou a desequilibrar as finanças públicas!…

Os Russos, embora algo parecidos na fisionomia, são muito diferentes de nós. Os seus longos períodos de passividade contrastando com os acessos de transbordante exaltação foram explicados em tempos por um cientista social como provindo do hábito das pobres mamãs camponeses deixarem os seus filhos sozinhos nas cabanas, enfaixados por várias horas como medida de segurança, enquanto elas andavam nas fainas da lavoura, e de os mimosearem festivamente quando regressavam ao fim da jornada. A letargia dos longos Invernos e do isolamento espacial e social dos labregos seria compensada com esporádicas explosões de energia, violência, afecto ou criatividade. A rudeza do clima e do território, com os meios de sobrevivência ou aproveitamento económico que impõem, também terão algo que ver com um outro aspecto a que o psico-sociólogo culturalista atendeu menos: o da brutalidade e violência. Conhecemo-las na frieza das maneiras dos criminosos que por aí aparecem (sempre acompanhados de loiras cabeleiras), mas elas existem desde há séculos: no knut dos cavaleiros cossacos, nos cobradores-de-impostos por conta do Czar, nos mujiques vergados à servidão ou às dívidas contraídas para sair dela, nos pogromes com que infernizavam os hebreus, na senha com que foram perseguidos os invasores napoleónicos ou alemães, no rebaixamento com que trataram polacos, bálticos ou ucranianos anexados, nas deportações siberianas, na própria violência empregue pelos opositores do poder ou em ambiente de guerra civil e, finalmente, pela longa cadeia de executores, torcionários e carrascos que sempre constituíram o braço-armado de quem manda em Moscovo, fosse ele o imperador, o conselho dos comissários do povo ou agora o governo eleito do sr. Putin.

O China adora o comércio (tal como os jogos-de-azar-ou-sorte) a despeito, ou por causa, da sua secular pobreza. A quem tem muito pouco, pouco lhe pode interessar perder esse resto: ficará quase na mesma. Mas aí se enxerta o “vício” – a fixação, o desvario – de arriscar mesmo com poucas probabilidades de êxito, como é típico dos comportamentos “addictive” (expressão agora mal traduzida para português por comportamentos “aditivos”) do jogador – que foi também tema de um famoso romance de Dostoievski. A roleta (russa) e as lutas-de-galos não andam longe, como se vê n’O Caçador (de Michael Cimino) e em reportagens turístico-etnográficas dos arquipélagos do Sueste. Alguns dos truques da aposta aplicam-se directamente na negociação de um preço de venda, mas nisto os chineses são diferentes de outros povos mercantilistas como, por exemplo, os da bacia mediterrânica e os arabizados do antigo comércio caravanista ou do oceano Índico ocidental, cuja economia se ligava mais facilmente à produção artesanal do tecido, do azulejo ou do metal, e menos à da seda, do barro ou da decoração. Há vendedores chineses estabelecidos desde há séculos em toda a orla meridional do continente asiático e Indonésia. E há muito também que eles constituíram colónias urbanas na América do Norte, bastante fechadas, onde não poucos iam aos poucos destruindo o corpo com o ópio fumado, tal como se fazia no litoral do Império do Meio. Compra, venda, troca, aposta, tlabalal, tlabalal e algum fumo para repousar, era talvez o ritmo pausado do homem-chinês não sujeito ao esforço hercúleo de laborar a terra. Do caleidoscópio dos símbolos sinaléticos dos diversos jogos de casino sai uma correspondência imediata para a manipulação da moeda. E quem diz manipulação, diz acumulação, ou (em mente chinesa) tentação para arriscar de novo o capital acumulado. Salvo quando as quantias atingem elevados patamares, em que se recorre à garantia da tríade, o bando assalariado capaz de cumprir qualquer ordem do poderoso.  Nunca fui ao Oriente mas foi este tipo de clichés que li em Pearl Buck, Malraux, Duras e alguns outros, com histórias de miséria, cúlis ou amantes.

E o Yankee é uma misturada de velhos rebeldes anglófonos, extasiados por várias “corridas ao ouro” e pelas pradarias que usurparam aos “índios” de armas na mão, tolerando-se mutuamente, bem como a outras comunidades étnicas, de que chegaram a respeitar os italianos, os russos, gregos ou alemães, sendo que os franceses mais antigos foram empurrados para latitudes extremas (no Quebeque e na Luisiana), os cheyennes, sioux e apaches devidamente “aparcados”, os negros tornados cidadãos (apesar do punho erguido ameaçador do black power) e os chicanos integrados progressivamente nos estados do sul. Tudo isto, no “caldo” de um orgulho verdadeiramente nacional de ser “born in USA” e de querer honrar “the land of the free and the home of the brave”, no seio de uma sociedade ciente e praticante da sua liberdade fundadora, mas plena de contrastes e contradições. Por isso, os movimentos sociais são ali genuínos e estruturantes, como foram o abolicionismo, o labor movement, os direitos cívicos, a oposição à guerra do Vietnam, o women’s lib e agora as manifestações dos adolescentes e dos muito jovens contra o lobby das armas. Estará à vista uma alteração à 2ª Emenda da Constituição norte-americana?

João Freire / 1.Abril.2018

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s