Neo-fascismo no seu berço histórico?

Finalmente, apurou-se uma solução governativa para a Alemanha, com o acordo de “grande coligação” entre os demo-cristãos da CDU-CSU e um SPD social-democrata enfraquecido pelos maus resultados obtidos nas urnas mas com capacidade negocial aumentada pelas necessidades de parceiro da senhora Merkel. Com os Verdes, os Liberais e os Die Link acantonados nos seus feudos, tudo pode concorrer para que a direitista AfD (eurocéptica com laivos extremistas) engrosse futuramente as suas fileiras, sobretudo dependente das orientações políticas da União Europeia e da integração/controlo dos fluxos de imigrantes.

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As eleições de Março em Itália resultaram, sem surpresa, num novo parlamento puxado às direitas e dificilmente governável. Os populistas “anti-sistema” do Cinque Stelle obtiveram a mais forte votação (33% e 221 deputados em 630) com um discurso eurocéptico e moderadamente anti-imigrantes. A Liga (ex-Norte) deixou de ser regionalista/autonomista (contra os “improdutivos e aproveitadores” de Roma e do Mezzigiorno) para se tornar abertamente nacionalista, anti-Euro e anti-União Europeia, obtendo agora 17% das preferências do eleitorado. O partido de Berlusconi ficou-se pelos 14%, mas anima uma união-das-direitas e subscreve o essencial das suas posições. Com os Fratelli d’Italia, de inspiração “almirantista” e vagamente mussoliniana (mas decerto nacionalistas de extrema-direita), estes três partidos juntos fazem um bloco parlamentar de 260 deputados, o maior da câmara. Finalmente, entre as grandes forças políticas, o Partido Democrático (ex-comunistas, com alguns socialistas e antigos esquerdistas) foi quem mais perdeu, obtendo agora 18% dos votos e 112 deputados, a que se poderão eventualmente juntar os 14 dos Liberi e Uguali. Sendo a maioria de 316 lugares, nenhum dos três conjuntos consegue governar com programa e estabilidade. No senado, os resultados foram semelhantes e é bem conhecida a dificuldade acrescida desta duplicação. Mais um governo a prazo para preparar novas eleições? (com outras regras?) Eis claramente colocado o problema da inadequação destas leis eleitorais para obter governabilidade! Quem viabilizará quem?  Deixará a “esquerda” passar certas medidas “populistas”? Serão os stellini a abster-se face a Berlusconi? Mas poder-se-á falar aqui de “neo-fascismo”? Ou antes de um populismo perigoso (politicamente orientado por valores conservadores, autoritários e xenófobos) que sabe explorar os erros da esquerda tradicional (nos direitos universais despesistas, no estatismo e nas questões fracturantes) para deslegitimar e enfraquecer os regimes demo-liberais em que temos vivido? Em todo o caso, pode não haver um “brexit” à italiana mas teremos a possibilidade de mais um dos “grandes” da UE a juntar-se à Polónia, à Hungria e aos Checos (pelo menos) para travar qualquer tentativa de “actualização” das políticas comuns – quer seja em termos financeiro-orçamentais, de defesa-e-segurança ou de política mundial –, apenas se preocupando em obter os fluxos de entradas monetárias mais favoráveis possíveis para os seus países. Merkell e Macron, que se preparem; Juncker e Centeno que se acautelem – isto vai aquecer…

Na Rússia, Putin afirma-se cada dia mais solidamente como um novo imperador populista, estando a alargar as suas “zonas de influência” para sul, o Próximo-Oriente e o Mediterrâneo oriental, com base numa Síria desmantelada. Num dos seus comícios eleitorais, permitiu-se reconhecer que 20% da população do seu país ainda vivia na pobreza, mas que eram o dobro há vinte anos atrás e que tal flagelo acabaria dentro de mais vinte anos. Como muitos outros demagogos, fala sempre no tempo futuro – vamos ter isto, seremos aquilo – mas desta vez distribuiu também ameaças a quem pensar perturbar tão radiosos amanhãs: inimigos internos, nem os citou, porque já estão todos encapsulados; externamente, nomeou os Estados Unidos (cuja última eleição procurou influenciar, como provavelmente fará doravante em tudo o que valha a pena, graças ao “tech-power informático”) e exibiu bonecos das suas armas nucleares mais recentes e sofisticadas. Trump que se cuide (salvo seja!), porque as ameaças comerciais podem não ser convincentes ou piorarem ainda a situação! E que se cuidem o bloco europeu liderado pela Alemanha, o Japão e a China! Face à “nova rota da seda” do imperador Xi, os russos são capazes de, antecipando o degelo ártico, ligar mais depressa o oriente e o ocidente por via marítima, nem que seja preciso manter a rota aberta “à bruta”!

Portugal: a política rasteira segue o seu curso. Para controlar as coisas à direita, o primeiro-ministro louva o contributo que a agricultura estaria a dar ao PIB, mas ninguém refere o tipo de mão-de-obra que esta cada vez mais emprega: trabalhadores vindos de muito longe em más condições e com baixos salários. Nem que a subida do investimento se deve sobretudo à compra de casas por estrangeiros e indirectamente ao boom turístico. Nem que web summits, há vários por esse mundo fora (Barcelona, etc.) e são apenas show offs que correspondem às antigas feiras-de-inventos: fazem mexer o comércio mas não são, só por si, avanços produtivos. Por outro lado, é difícil perceber como o general Rovisco Duarte, Chefe do Estado-Maior do Exército, que já sofrera o enxovalho de ver grosseiramente desrespeitado o seu estatuto por deputados da comissão de defesa da AR e agora foi publicamente repreendido pelo Presidente da República na tomada de posse do almirante chefe militar máximo, não apresentou de imediato a sua demissão, pois parece claro que não será com atitudes destas que conquistará o respeito dos seus subordinados nem melhorará a consideração destes na opinião pública (sobretudo com a pobre figura pública do ministro que os tutela). Finalmente, todos estão na expectativa de como se vão apresentar os factores naturais-ambientais nos próximos tempos – da seca aos incêndios e aos fenómenos extremos – para ver como se hão de posicionar de maneira mais favorável perante osmass media, os comentadores e as “redes sociais” (isto é, os interlocutores que verdadeiramente contam para “a imagem”) – enquanto se discute e negoceia “em restrito” todo o tipo de negócios públicos e privados. A situação do Montepio Geral, as relações com Angola e os “assuntos europeus” vão ser importantes testes para fazer melhorar ou piorar a cota opinativa que a sociedade atribui às nossas elites.

João Freire / 7.Março.2018

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